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Buarque. Chico Buarque. O Chico, é o Chico, um dos melhores de todos Nós. Agarrei-me ao seu talento para me salvar do confinamento da caneta. A pandemia parece que nos tira tudo, que nos tira de tudo. Todos os dias contamos infectados, internados e mortos. O vírus prendeu-nos.

Somos pessoas. Viver (?) assim todos os dias, tantos dias, cansa. Cansa muito, e assusta.

Somos pessoas. Temos medo, da doença, da ruína, da fome, do fim.

Não sei escrever como o Chico, mas, “Aproveitando o Ensejo”, sou capaz de Abraçar o que o Chico escreveu, para…    
“Sonhar
Mais um sonho impossível
Lutar
Quando é fácil ceder
Vencer o inimigo invencível
Negar quando a regra é vender
Sofrer a tortura implacável
Romper a incabível prisão
Voar num limite improvável
Tocar o inacessível chão
É minha lei, é minha questão
Virar esse mundo
Cravar esse chão
Não me importa saber
Se é terrível demais
Quantas guerras terei que vencer
Por um pouco de paz
E amanhã, se esse chão que eu beijei
For meu leito e perdão
Vou saber que valeu delirar
E morrer de paixão
E assim, seja lá como for
Vai ter fim a infinita aflição
E o mundo vai ver uma flor
Brotar do impossível chão.”

Vitor Neves

(publicado no jornal Folha do Centro, 16 de Outubro de 2020)

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publicado às 19:39

Medodemia

05.04.20

coronavirus1.jpg

- Tenho medo!

Tenho medo que o vírus se encontre com os meus filhos.

Tenho medo que daqui a um instante não consiga pagar salários.

Tenho medo que daqui a uns dias chegue a desgraça de faltar tudo.

Tenho medo de acordar e sentir que viver é…sobreviver!

Tenho medo pelo tudo que está a acontecer, mas não tenho medo de ter medo.

Também não tenho medo de o dizer em público. Tenho até medo que o meu “tenho medo” seja universal.

Tenho medo, mas quero seguir. Vou respeitar, cuidar, mas não vou parar. Não quero, não quero parar. Tão pouco vou parar de acreditar que isto vai passar.

Confesso, no entanto, que me custa escrever…

Uma “coisa” chamada coronavírus, uma “coisa” também chamada Covid 19, num ápice senta o ser humano na sua imensa fragilidade, na sua indizível impotência.

Logo por estes dias, em que parecia que tanta tecnologia, tanta ciência, tanta cura impossível, tanta longevidade, tanta ilusão de eternidade, tinham transformado o nosso ser humano num ser invencível e inexpugnável.

Afinal…

Afinal, de repente, tudo isto é frágil, demasiado frágil e parece que tudo se vai desmoronar, tal a velocidade com que se alterou o modo como vivíamos, se limitou a liberdade que tínhamos, se instalou o limite em tudo o que fazemos, queremos ou imaginamos.

Afinal, quase sem darmos conta, damos conta que não há esconderijo, não há fuga possível, estamos encostados á parede! E um sentir incrédulo, que não se consegue desenhar, magoa-nos até ao osso quando olhamos todas as nossas prioridades e tudo parece ter deixado de fazer sentido. Sim, o vírus roubou o sentido ao que nos fazia sentido…

O ser humano tem uma capacidade ilimitada de se socorrer do irracional, do despropositado, do inconsciente, do sonho para se manter á tona e continuar, e continuar agarrado a tudo, até ao ditado que um dia sentenciou que não há mal que sempre dure.

…no filme “Western Stars”, a voz de Bruce Springsteen diz-nos: temos que continuar a caminhar, no escuro, sabendo que é lá que está a manhã seguinte.

Vitor Neves

(publicado no jornal Folha do Centro, 12 Março de 2020)

ps.: Fez bem o Município de Oliveira do Hospital em cancelar a Festa do Queijo Serra da Estrela. A coragem do bom senso em uma decisão acertada.      

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publicado às 18:28


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