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São vários os textos em que aqui elegemos a "demografia" como um dos mais sérios desafios que Portugal enfrenta, o qual, ao não ser ganho, pode colocar em risco a boa resposta a outros desafios e comprometer, irremediavelmente e por décadas, a recuperação da economia nacional e o desenvolvimentodo futuro do país.

Como não é um tema dado a imediatismos, torna-se complicado mantê-lo no topo da agenda política e, consequentemente, nas 1ªs páginas dos jornais.

Mesmo em Agosto, com o país "adormecido" e a banhos, importa ter a consciência desperta para este problema existe e é grave. Assim , aqui se partilha, que lá fora também já se deu conta do que se está a passar, como bem o demonstra o trabalho publicado no Financial Times.   

 

Tempestade Demográfica Perfeita 

img_300x400$2015_06_24_21_59_06_257327.jpgA elevada taxa de desemprego jovem e a precariedade do mercado de trabalho são factores críticos que levam os jovens casais a adiarem a decisão de terem filhos, diz o Financial Times num trabalho sobre a demografia em Portugal. 

"Uma fabricante de vestuário no centro do país começou a pagar aos seus trabalhadores um bónus por terem filhos. O ‘incentivo à natalidade’, de 505 euros, que corresponde ao salário mínimo mensal que a maioria dos 330 empregados dessa empresa recebe, é uma modesta resposta local ao que Pedro Passos Coelho descreve como o maior problema de Portugal: o rápido declínio da sua população". É assim que o Financial Times começa por abordar, num trabalho sobre a demografia em Portugal, os problemas com que o país se confronta neste plano.

A referida empresa de confecções chama-se Goucam (Gouveia & Campos), foi criada em 1978 e é hoje uma das maiores exportadoras do concelho de Viseu e também uma importante empregadora na região.

"Ninguém vai ter um filho por causa deste privilégio", comentou ao FT Ângela Castanheira, uma das administradoras do grupo. "No entanto, é um gesto incentivador que esperamos que se estenda a outras empresas e que leve o governo a confrontar um problema que está a ameaçar os nossos futuros", acrescentou.

A empresa atribui estes incentivos à natalidade desde Janeiro de 2015 e está também a devolver a sobretaxa de IRS aos seus trabalhadores. "Desde Janeiro deste ano, decidimos começar a realizar este incentivo [à natalidade] e apoiar com a atribuição de um salário mínimo [ao trabalhador], no mês do nascimento da criança", diz Ângela Castanheira.

Pegando neste exemplo, o jornal britânico sublinha que Portugal é o país da União Europeia mais duramente atingido por um problema demográfico que se estende a toda a Europa, numa altura em que a redução das taxas de fertilidade e o envelhecimento das populações coloca em risco o crescimento económico, bem como a atribuição de pensões e a prestação de serviços de saúde pública e cuidados na terceira idade.

"Esta crise que paira, descrita no editorial de um jornal como uma ‘tempestade demográfica perfeita’, resulta da conjugação da forte queda da taxa de natalidade em Portugal, da profunda recessão e da vaga de emigração que está a tornar o país, muito rapidamente, numa sociedade de famílias só com um filho", salienta o artigo do FT, aludindo a um editorial do jornal Público de 10 de Março de 2014.

"Os mais jovens estão a adiar cada vez mais a altura em que começam a constituir família porque é actualmente muito difícil encontrar um emprego estável – isto quando se consegue emprego – que lhes permita sair de casa dos pais e fixarem-se por conta própria", refere ao jornal britânico José Loff, um consultor estatístico com 37 anos e um filho de dois anos. O Financial Times lembra, neste trabalho assinado pelo seu correspondente em Lisboa, Peter Wise, que a taxa de fertilidade [número médio de crianças na população por cada mulher em idade fértil] em Portugal tem vindo a cair, tendo passado de 3 em 1970 para 1,21 em 2013. "Trata-se do nível mais baixo na Europa e, no universo dos 34 países membros da OCDE, apenas a Coreia do Sul tem uma taxa mais baixa", sublinha o jornal.

Se nada mudar, a projecção mais pessimista do Instituto Nacional de Estatística (INE) aponta para que a população de Portugal caia de 10,5 milhões de pessoas para 6,3 milhões em 2060, ao passo que o número de pessoas com idade acima dos 65 anos por cada 100 pessoas com menos de 15 anos – o chamado índice de envelhecimento – disparará de 131 para 464, o mais alto da Europa, alerta o FT.

 

Fonte: Jornal de Negócios

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publicado às 11:49

O Luís Afonso, cartoonista, publicou hoje no Público o que em baixo partilhamos:

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O que motivou a inspiração do génio português do alentejo foi a notícia que a seguir se publica, sem mais comentários.

"O grupo dos 1% mais ricos do mundo detém 110 biliões de dólares (81 biliões de euros) e controla mais de metade do património mundial, segundo o relatório elaborado pela Oxfam para o Fórum Económico Mundial, em Davos. 85 pessoas detêm uma riqueza igual à da metade mais baixa da população mundial.

A confederação internacional que procura soluções para a pobreza adverte que os actuais “níveis extremos de concentração de riqueza” ameaçam excluir centenas de milhões de pessoas das oportunidades de desenvolvimento, segundo o relatório elaborado para apresentar em Davos. O Fórum Económico Mundial cita as desigualdades como a segunda maior ameaça à estabilidade.

Se a riqueza detida pela metade da população mundial com menor acesso a recursos é igual à das 85 pessoas mais ricas, o grupo de 1% das pessoas com maior património detém o equivalente a 65 vezes a riqueza da metade mais pobre da população mundial, lê-se.

“Uma certa medida de desigualdade é essencial para induzir crescimento e o progresso, recompensando aqueles que têm talento, conquistam aptidões e a ambição para inovar assumir riscos produtivos”, enuncia o relatório. “Contudo, os níveis extremos de concentração de riqueza que ocorrem hoje ameaçam excluir centenas de milhões de pessoas de se apropriarem dos benefícios dos seus talentos e trabalho árduo”,conclui.

Nas últimas décadas, o mesmo grupo de 1% conseguiu aumentar a sua riqueza em 24 dos 26 países para os quais a Oxfam detém dados relativos ao período de 1980 a 2012. Os mais ricos também estão a sair de forma mais favorável da crise que ocorreu em 2008, sendo que 1% da população dos Estados Unidos da América captou 95% do crescimento gerado desde 2009."

Fonte: Jornal de Negócios

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publicado às 22:02

O olhar pela democracia de Pedro Magalhães (cientista político)

 

 

«...uma das coisas maravilhosas das democracias é a possibilidade de resolvermos os nossos conflitos de uma maneira pacífica, que aliene o menor número possível de pessoas e de interesses, que gere compromisso.

 

Temos um aparelho de Estado que é rapidamente colonizado pelos partidos. Os nossos partidos são instituições fracas.
PS, PSD e CDS, em vários momentos, juntaram-se para distribuir os despojos dos cargos de liderança das empresas públicas e das direcções gerais.

 

Temos democracia, mas não temos o resto do pacote (um Estado Providência desenvolvido, mais igualdade, menos pobreza...).
Inclusive, há sinais de que estamos em inversão em muitos destes aspectos. A frustração é inevitável.

 

 

 

Nas novas democracias há sempre um momento de desencanto. Quando se luta por um novo regime, todas as pessoas têm expectativas diferentes, e a democracia não permite que um grupo ou um interesse realize tudo o que quer em desfavor do outro. É uma vantagem da democracia e uma fonte de frustração. A democracia é o mundo do “second best”.»

  

Por isso é que é o pior sistema com excepção de todos os outros, como dizia Churchill.

É. Todos conseguem e não conseguem exactamente aquilo que querem. Conseguem muitas vezes uma segunda e terceira opção [em relação ao que pretendiam]. “O novo regime vai ser aquilo que nós queremos.” Mas o “nós”, em vários sentidos, não existe. “Portugal deve”, “os portugueses querem”, “é preciso que os portugueses façam”... Os portugueses são um conjunto diverso de pessoas com interesses contraditórios. Quando o Fernando Ulrich falava dos sem abrigo e dizia que eles aguentam, dizia também: nós, nós, nós. Não há um “nós” no sentido em que o Fernando Ulrich o usava. O Fernando Ulrich partilha tantos interesses comigo como eu partilho com a empregada que trabalha em minha casa. Infelizmente, há muitos interesses que não partilhamos, temos interesses em conflito, temos estatutos sociais diferentes. Isto para dizer que a frustração de expectativas é inevitável.

 

Depois de um tempo de magia um inevitável desencanto...

Sim. E uma coisa é garantir liberdade de expressão, de voto, de associação, protecção mínima dos direitos cívicos, liberdade religiosa – é desses direitos que faz a democracia e é uma conquista que não é de somenos. Mas depois vem o resto. O resto é aquele momento em que nos damos conta que uma coisa é a construção desta democracia, feita de procedimentos e de direitos, outra coisa é a qualidade da democracia.

 

O que leva alguns a dizer frases do tipo: “Isto nem é democracia nem é nada”.

As democracias mais antigas (Inglaterra, Estados Unidos, Europa do norte), com todos os seus problemas, foram resultado de processos de baixo para cima. Dou um exemplo. Temos partidos de centro-esquerda, como os alemães também têm, o SPD. Mas nesses países os partidos de centro-esquerda são uma emanação dos sindicatos. Em Portugal os sindicatos foram criados pelo Estado.

 

E hoje estão ligados ao PC, no caso da CGTP...

E a UGT ao PS e ao PSD. Isto dá-nos logo uma ideia de que o processo não foi o mesmo. Isto mostra-nos porque é que em Portugal, na Grécia, nas democracias da América Latina, os sentimentos das pessoas em relação aos partidos e a sua sensação de não serem representadas pelos partidos são mais intensos do que nas antigas democracias. A mesma coisa com o centro-direita. Há muitos partidos de centro-direita nas democracias mais antigas que são uma emanação das igrejas, são uma manifestação política do poder da igreja.

 

O que é que não temos na nossa democracia, se temos liberdade de expressão e outras formas de liberdade, como já apontou?

Temos um sistema judicial que funciona mal. Temos um aparelho de Estado que elabora más políticas, que é rapidamente colonizado pelos partidos.

 

Está a dizer que o sector da justiça é o mais deficiente da nossa democracia? Aponta isso à cabeça?

Aponto eu e apontam as pessoas. Nos inquéritos, quando perguntamos: “Qual é o aspecto mais deficiente na nossa democracia?”, as pessoas convergem para várias coisas; aquela para que convergem mais rapidamente é o sistema judicial. Essas deficiências são heranças de longo prazo. A transição para uma democracia onde há eleições livres, competição partidária, direitos cívicos, pode fazer-se de uma forma relativamente rápida. É no resto que a História, a sociedade, a interacção com as instituições mostra as nossas deficiências. E por isso é difícil continuarmos felizes e realizados pelo facto de termos eleições livres ou liberdade religiosa. Não temos muito do resto que nos outros países faz parte do pacote, que foi desenvolvido historicamente durante muito tempo.

 

Temos uma cidadania pouco participativa.

Pouco envolvida, passiva. As pessoas desconfiam muitíssimo umas das outras.

 

Desconfiam, mais do que tudo, do Estado?

Não. A seguir à Bulgária, somos o país europeu em que o cidadão, quando se lhe pergunta: “Acha que pode confiar nos outros ou que todo o cuidado é pouco?”, [mais] responde que todo o cuidado é pouco. 75%, 80%. Experimente perguntar isto a um sueco. É o contrário. Se as pessoas apenas confiam no seu círculo familiar ou de vizinhança mais restrito, e não confiam em pessoas que não conhecem, isto tem consequências que atravessam a sociedade toda. 

 

Continuaremos a ser uma democracia (e nesse caso já antiga) mas imperfeita. É isso?

É uma das questões mais interessantes que se podem levantar hoje. Dizemos: novas democracias. Não somos assim tão novos... Quarenta anos já é bastante tempo. Mas os legados históricos demoram muito tempo a desfazer-se. São características quase intrínsecas da sociedade. Por muito que mudemos regime – de ditadura para democracia – as suas consequências continuam a ser visíveis porque são extremamente profundas.

 

As pessoas já viveram mais satisfeitas com a democracia.

Já. Neste momento, somos os europeus mais insatisfeitos com a maneira como funciona a democracia. Só os búlgaros e os romenos estão ao nosso nível. Mas se olharmos para os gráficos da confiança, em dez, vinte, trinta anos, são linhas rectas. Isso não muda. Os emigrantes de segunda geração mantêm a desconfiança [que foi inculcada pelos pais]. Arriscamo-nos a tornar-nos uma velha democracia e uma velha democracia deficiente. Não tenho sinais de que possa ser diferente.

 

Globalmente os portugueses continuam a preferir a democracia.

Uma larga maioria, quando lhes perguntamos nos inquéritos: “Acha que a democracia esgotou o seu prazo de validade? Acha que há regimes melhores?”, continua a apoiar um regime democrático. O que temos é um entendimento do que é a democracia que é mais exigente e mais maximalista do que se verifica em outros países. O último European Social Survey (o inquérito mais importante que se faz na Europa de dois em dois anos) tinha perguntas sobre liberdade de expressão, eleições livres, tribunais que tratam todas as pessoas da mesma maneira, controle da corrupção, igualdade social, combate à pobreza. Perguntávamos: “Até que ponto considera cada uma destas coisas essencial para que um regime se diga democrático?”

 

No fundo, é uma maneira de perguntar a que é que corresponde a ideia de democracia.

Sim. Depois perguntávamos: “Até que ponto acha que o seu país corresponde a esta [ideia]?” Em Portugal, a ideia de que a democracia é também reduzir igualdade social, combater a pobreza, ter tribunais que tratam as pessoas, independentemente do seu estatuto, da mesma forma, faz parte do conceito de democracia. Isto é tão essencial como eleições livres, como liberdade de expressão. Se em Portugal isso é tão essencial, quando perguntamos às pessoas se estão satisfeitas, é claro que estão insatisfeitas.

 

A democracia esgotou o seu prazo de validade?

 

 

(Excertos da Ampola Miraculosa, Anabela Mota Ribeiro, Miguel Baltazar, Jornal de Negócios, Weekend, sexta-feira, 17 de Janeiro de 2014)

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publicado às 15:25

Para o Coreógrafo a democracia está em risco.

Para o Professor em democracia é possível corrigir.

Para o Jornalista/Escritor a democracia não se governa assim.

Estas opiniões foram publicadas em Portugal nos últimos trinta dias.

Tantos e tão diferentes preocupados com a democracia. Porquê?

Talvez ajude a resposta ler o que se segue...

 

A democracia está em perigo, ninguém sabe bem o que vai acontecer, os limites foram sendo ultrapassados. Deixámos de investir nas pessoas para investir na imagem do país, para estar ao pé dos outros, para ser parecido com os outros, e esse foi sempre o problema de Portugal. O Portugal de brandos costumes não nos tem ajudado. As pessoas até se mobilizam, mas as manifestações não têm tido um efeito efectivo. Falta uma coisa que rasgue um pouco mais, que agite um pouco mais. As pessoas não vão até onde poderiam ir. Ainda existe medo, ainda existe muito a perder. E, em Portugal, o Estado é ainda muito presente.

Tiago Guedes

Coreógrafo, Teatro Virgínia - Torres Novas

Jornal de Negócios

 

Há desigualdade no capitalismo? Há.

Mas muitos que dela beneficiam tém-no por mérito (Bill Gates, etc.), não pela força.

E na democracia é possível corrigir muita coisa. Na ditadura nada.

Porque não há equilíbrio mas concentração de poderes.

E já se sabe como é: se o poder corrompe, o poder absoluto corrompe absolutamente.

Jorge A. Vasconcellos e Sá

Mestre DruckerSchool

PhD Columbia University

Professor Catedrático 

Vida Económica 

 

Por falta de conhecimento e já falta de interesse, não discuto a questão de fundo: já sei que os ministros da Educação têm a tentação de lançar avaliações que acabam em rendições e que a Fenprof, por dever de função, é contra toda e qualquer avaliação - seja de professores ou de escolas.

Mas meter doze providências cautelares em doze tribunais, na esperança que apenas um deles - e será suficiente - decida a pretensão da Fenprof de suspender as avaliações, parece-me uma forma esdrúxula de conseguir que a simples opinião de um juiz possa suspender um acto banal de política de um Governo eleito, mesmo que outros onze juízes pensem diferente. Haverá alguma outra democracia no mundo que se governe assim?

Miguel Sousa Tavares

Jornalista, Escritor

Expresso

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publicado às 22:30

Apesar da fartura de notícias relacionando a iminente morte da imprensa com uma crise da comunicação, surgem cada vez mais sinais de que as coisas não são assim.

Recentemente a “Advertising Age” publicou um trabalho no qual reflectia sobre o sucesso de alguns título que souberam desenvolver aquilo a que chamaram “uma árvore de interesses” - ramificações, a partir do tronco original da marca, em papel, que passam por diversos aproveitamentos digitais, por operações de venda on line, mas também por spin-offs virtuais que exploram nichos de interesse dentro da marca principal e por eventos e iniciativas públicas que fornecem conteúdo editorial e são ocasiões especiais de interacção pessoal entre leitores e editores.

Alguns estudiosos de comunicação olham para o que se passa hoje em dia e afirmam que estamos a sair do “parênteses de Gutemberg”: durante cerca de cinco séculos a informação e o conhecimento foram formatados pelo processo tipográfico, mas o digital veio acabar com essa rigidez e veio voltar a permitir a livre troca de colaborações, conversas, opiniões - por definição as edições digitais estão sempre em permanente alteração e actualização.

Há quem diga que esta evolução da forma fixa do papel para a fluidez digital não é nova - é apenas o regresso à tradição oral, à forma original de comunicação entre as pessoas, antes do tal parenteses de Gutenberg - e o twitter parece ser um excelente exmplo disso mesmo.

Talvez estejamos apenas numa transição,  no recomeço de um velho processo: o da comunicação.

As marcas fortes que se afirmaram na informação vão continuar a contar boas histórias, talvez apenas de outra maneira, e é nelas que os leitores continuarão a acreditar.

 

A Esquina do Rio

Manuel Falcão

(Publicado no Jornal de Negócios e no blog na sexta-feira 25 de Outubro de 2013)

 

Nota: o título é retirado do texto, mas não é o título original, a saber:"Sobre a reconversão da comunicação e sugestões avulsas".

A edição em ca$h resto z€ro deste texto, é uma vénia de concordância absoluta com o conteúdo do mesmo. 

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publicado às 23:00

«Os 50 mais poderosos da economia Portuguesa - Poderosos 2013» é uma iniciativa do Jornal de Negócios com assinatura, na edição deste ano, de Eva Gaspar, Fernando Sobral e Pedro Santos Guerreiro.

É um trabalho onde se pode ler nas entrelinhas as linhas que ligam quem tem poder em Portugal.

 

Como não podia deixar de ser, o mais poderoso da economia nacional é a poderosa Angela Merkel, pelo 3º ano consecutivo. O banqueiro Ricardo Salgado (BES) é o "nacional" com mais poder na lusa economia.

A edição de 2013 deu a conhecer 13 novos poderosos. Dos 50, apenas 5 são mulheres. Há 8 estrangeiros, 4 dos quais são angolanos. Draghi, Portas e Paulo Azevedo são as maiores subidas. As entradas mais rompantes são de Maria Luís Albuquerque, Pires de Lima, e do Presidente do Constitucional. As saídas mais estrondosas são de Relvas e Gaspar. Advogados, banqueiros, empresáios, gestores e políticos compõem o grosso da coluna, num país que perdeu em poder o que ganhou em instabilidade

http://www.jornaldenegocios.pt/especiais/poderosos_2013.html

 

Esta iniciativa jornalística de qualidade, que anima o verão, associou a cada poderoso uma frase.

Não faltam por aí sítios onde encontrar frases para todos os gostos. Mas estas são as frases poderosas da economia nacional verão 2013 - parte II (24 frases. Não foi atribuída frase a Angela Merkel.).

Boa leitura. E não esquecer que cada frase "tem um rosto" de alguém com - mais ou menos - poder. 

 

 

"Não me importo com o que os outros pensam a respeito do que faço, mas importo-me com o que eu penso sobre o que faço. Isso demonstra carácter".

Theodore Roosevelt

 

"As oportunidades multiplicam-se à medida em que são agarradas."
Sun Tzu

 

"Nós não temos aliados eternos, nem inimigos perpétuos. Os nossos interesses é que são eternos e perpétuos e o nosso dever está em perseguir esses interesses."
Visconde de Palmerston

 

"Coragem é o preço que a vida cobra para garantir a paz."
Amelia Earhart

 

"Quando não se pode derrotar fica-se sócio".
Ulysses Guimarães

 

"Dizem que os que governam são o espelho da República: não é assim, senão ao contrário. A República é o espelho dos que a governam".
Padre António Vieira

 

"A vida é uma escola de probalidades."
Walter Bagehot

 

"As leis não são feitas para o homem bom".
Sócrates

 

"Um homem de Estado não pode dizer tudo".
Fernando Henrique Cardoso

 

"Controle o seu destino ou alguém controlará".
Jack Welch

 

"Não encontro defeitos. Encontro soluções. Qualquer um sabe queixar-se".
Henry Ford

 

"A democracia é um erro estatístico, porque na democracia decide a maioria e a maioria é formada de imbecis".

Jorge Luis Borges

 

"O consumo é a única finalidade e o único propósito de toda produção".
Adam Smith

 

"A política é como fotografia, aquele que se mexe muito não sai".
Jânio Quadros

 

"Devemos ter a chave da nossa casa".
Nicolau I

 

"Lidere, siga... ou saia do caminho".
Ted Turner

 

"Guarda sempre forças em reserva, a fim de que ninguém possa conhecer os limites do teu poder".
Cardeal Jules Mazarin

 

"A liderança é uma poderosa combinação de estratégia e carácter. Mas se tiver de passar sem um, que seja a estratégia".
Norman SchWarzkopf

 

"O amor ao país é a primeira virtude num homem civilizado".
Napoleão Bonaparte

 

"O silêncio não comete erros".
Curtis L. Johnson

 

"Só há uma coisa pior do que lutar com aliados - é lutar sem eles".
Winston Churchill

 

"Fazer política em cima de princípios é o mesmo que caminhar por uma trilha estreita na floresta, carregando uma vara longa entre os dentes."
Otto von Bismarck

 

"Um homem tem sempre duas razões para as coisas que faz: a que soa bem e a real".
J.P. Morgan

 

"Deixem-me emitir e controlar o dinheiro de uma nação e não quererei saber quem escreve as leis".

Mayer Amschel Rothschild

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publicado às 17:04

 

«Os 50 mais poderosos da economia Portuguesa - Poderosos 2013» é uma iniciativa do Jornal de Negócios com assinatura, na edição deste ano, de Eva Gaspar, Fernando Sobral e Pedro Santos Guerreiro.

É um trabalho onde se pode ler nas entrelinhas as linhas que ligam quem tem poder em Portugal.

Como não podia deixar de ser, o mais poderoso da economia nacional é a poderosa Angela Merkel, pelo 3º ano consecutivo. O banqueiro Ricardo Salgado (BES) é o "nacional" com mais poder na lusa economia.

Esta iniciativa jornalística de qualidade, que anima o verão, associou a cada poderoso uma frase.

Não faltam por aí sítios onde encontrar frases para todos os gostos. Mas estas são as frases poderosas da economia nacional verão 2013 - parte I.

No próximo fim de semana será partilhada a parte II e última.

Boa leitura. E não esquecer que cada frase "tem um rosto" de alguém com - mais ou menos - poder. 


"É erro vulgar confundir o desejar com o querer. O desejo mede os obstáculos; a vontade vence-os."
Alexandre Herculano


"Eu tenho mais medo de um exército de cem ovelhas liderado por um leão do que um exército de cem leões liderados por um ovelha."
Charles-Maurice de Talleyrand-Périgord


"Há algo maior que o poder, chama-se justiça."
André Malraux


"Pensar é o trabalho mais difícil que existe, e esta é provavelmente a razão por que tão poucos se dedicam a ele."
Henry Ford


"A tragédia do homem moderno não é ele saber cada vez menos sobre o significado da sua própria vida, é ele preocupar-se cada vez menos."

Václav Havel


"Ninguém vê mais claro nos negócios de outro do que aquele a quem eles mais interessam."
Cardeal de Richelieu


"Ser poderoso é como ser uma senhora. Se tens de dizer às pessoas que o és, então não o és."
Margaret Thatcher


"Quase todos os homens são capazes de superar a adversidade. Mas se se quiser pôr à prova o carácter de um homem, dê-se-lhe poder."
Abraham Lincoln


"A minha fórmula para o êxito: levantar-me cedo, trabalhar até tarde, encontrar petróleo."
Jean Paul Getty


"O poder é um camaleão ao contrário - todos tomam a sua cor."
Millôr Fernandes


"Todo mundo deve actuar no teatro de marionetas da vida e sentir o arame que nos mantém em movimento."

Chopenhauer


"Seja qual for o relacionamento que você atraiu para dentro de sua vida, numa determinada época, ele foi aquilo de que você precisava naquele momento".
Deepak Chopra


"É preferível capturar o exército inimigo a destruí-lo. Obter uma centena de batalhas não é o cúmulo da habilidade. Dominar o inimigo sem combater, isso sim é o cúmulo da habilidade".
Sun Tzu


"O reactor da economia moderna não é a quinta, não é a fábrica, não é o banco. É a escola."
Peter F. Drucker


"Quando se concede à mulher a igualdade com o homem, ela torna-se superior a ele".
Margaret Thatcher


"O juiz não é nomeado para fazer favores com a justiça, mas para julgar segundo as leis."
Platão


"A diferença fundamental entre Direita e Esquerda é que a Direita acredita cegamente em tudo que lhe ensinaram, e a Esquerda acredita cegamente em tudo que ensina.".
Millôr Fernandes


"Ser mulher é uma tarefa terrivelmente difícil, uma vez que consiste principalmente em lidar com homens."
Joseph Conrad (1857-1924)


"Regra número um: nunca perder dinheiro. Regra número dois: nunca esquecer a regra número um".
Warren Buffet


"Em qualquer magistratura, é indispensável compensar a grandeza do poder pela brevidade da duração".
Montesquieu


"Nunca negociemos sem medo, mas nunca tenhamos medo de negociar".
John F. Kennedy


"Conheço muitos que não puderam, quando deviam, porque não quiseram, quando podiam".
François Rabelais


"A partir de certa idade, quer por astúcia quer por amor próprio, as coisas que mais desejamos são as que fingimos não desejar".
Marcel Proust

 

"A Constituição é uma muralha de papel."
Napoleão Bonaparte


"Governar é fazer acreditar"
Nicolau Maquiavel


 

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publicado às 23:24

«Demo-dura» ou «Dita-cracia»

 

A interrogação mantém-se. E alarga-se.

São cada vez mais aqueles que se interrogam.

 

No dia 12 de Julho, José Miguel Júdice, no Jornal de Negócios, partilhava com o mundo uma nova terminologia, «Demo-dura» ou «Dita-cracia» que, para além da originalidade, sustentava de forma particularmente assertiva.

Júdice diz que «Houve pessoas que mandaram em Portugal, mas quase sempre em ditadura. Não samemos mandar em democracia. Não tivemos tempo de aprender e não escolhemos dirigentes capazes. Mandar em democracia é mais difícil.»

O advogado recorda que «Salazar...sobreviveu porque (a ditadura) é um regime que se adequa a uma sociedade arcaica. Toma conta e desresponsabiliza-nos. Podemos sempre dizer que a culpa é deles. Temos uma sociedade que gosta do autoriarismo. Somos impotentes como povo.(...)as sociedades arcaicas exploram o medo.(...)A coragem em Portugal é considerada uma coisa dos inúteis. O egoísmo é outra característica das sociedades arcaicas. As pessoas são manhosas, cautelosas, não confiam.»

«A liberdade é um valor a que os portugueses não dão muito valor. Não gostamos da liberdade, gostamos de anarquia.», diz Júdice que se junta aos que entendem que existe um conflito entre democracia e liberdade: «A democracia mata a liberdade, muitas vezes. E a liberdade muitas vezes não quer a democracia.(...)Historicamente vem do grande conflito entre Montesquieu e Rousseau. As origens de todos os totalitarismos, nazismo, o fascismo, o leninismo, estão no Rousseau. Toda a liberdade vem do Montesquieu.»

Júdice diz o que pensa: «Precisávamos de acabar com estes partidos. Era preciso haver um golpe...uma revolução...» 

 

No dia 3 de Agosto, Pedro Arroja, no Expresso Economia, defendia que «A proibição dos partidos será a primeira medida para restaurar Portugal. Mas, não a extinção da democracia que evoluirá para um modelo diferente. Como o nome indica, os partidos servem para partir a comunidade e são uma versão laica das seitas do protestantismo religioso. Em Portugal os partidos surgiram depois da revolução liberal de 1820 e lançaram logo o país numa guerra civil. A única fase de prosperidade económica, estabilidade e unidade nacional foi quando os partidos estiveram proibidos. Os partidos só causam ruína e miséria. Esta classe política que nos levou a o desastre não pode continuar, precisamos de pessoas novas. Os políticos vivem num mundo só deles e fora da realidade.»

O economista, gestor de fortunas que acredita em milagres e que diz que «a fé é o último acto da razão», defende como novo modelo algo baseado n´ «a eleição do Papa...O colégio representativo, com pessoas que se distinguem pelo mérito e sabedoria...tem democracia, sim, mas não votam todos...é uma elite seleccionada em função da idade do mérito, assente em homens maduros, homens de julgamento.»   

 

Democracia? Ditadura? Demo-dura ou Dita-cracia?

 

 

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publicado às 15:45

( Um belo texto que não resisto em aqui partilhar. Um postal ilustrado do Julho político de 2013. Para memória futura.) 

Quer perceber o que se está a passar na política portuguesa? Ora, é fácil. É uma gaiola das malucas onde dois bêbados se encostam para não cair depois de andarem de mota no poço da morte.
Era dar-lhes um valente par de estalos. Enfim, um trambolho, é o que isto é. Uma coisa grotescómica. Palavra de jornalistas, políticos, comentadores, analistas e de uma série de personalidades com mais ou menos prestígio que vão escrevendo sobre a crise política que começou no dia 1 de Julho, com a demissão de Vítor Gaspar. Já bem depois da cena do palhaço. Quem diria? Pelos vistos, todos!

 

"Era uma metáfora!" Assunção Esteves bem tentava explicar-se ontem à noite, depois de ter feito uma citação, contra os manifestantes expulsos do Parlamento, de uma frase originalmente dita contra o regime nazi. "Não podemos deixar, como dizia a Simone de Beauvoir, que os nossos carrascos nos criem maus costumes". Uma metáfora. Uma metáfora? Mais uma plantada no jardim das figuras de estilo, que ganhou muitas flores desde que a crise política eclodiu. De "galinhas sem cabeça" a "bêbedos agarrados um contra o outro", diz-se e escreve-se de tudo. É a linguagem nesta crise. Ou é a linguagem desta crise. Lembra-se do palhaço? Não é preciso ir tão longe. A última semana e meia basta para estofar almofadas, umas fofas outras duras, de metáforas, imagens, metonímias, alegorias, perífrases e outras figuras de grande estilo.

 

"É como se dois suicidas se apaixonassem a meio da queda e acabassem por cair numa pilha de colchões", escreveu João Miguel Tavares, um dos cronistas que mais se esforçou na caracterização da crise política, "uma coisa tipo poço da morte, com os irmãos Pedro & Paulo em equilibrismos alucinados em cima de uma mota em alta velocidade". A imagem sugere alto risco. Mas também espectáculo e jogo, que habitam muitas figuras de estilo usadas por estes dias. Casino, poker, xadrez, roleta (e até roleta russa) são imagens repetidas para expressar o ambiente de negociação, de imprevisibilidade, de sorte e azar. Falando em motas: um partido numa coligação "não pode ser uma espécie de 'sidecar' sem travões nem guiador nem embraiagem", lembra Bagão Félix. Aceleremos.

 

Da condução, ou falta dela, escreveu ainda Fernanda Câncio, ao referir-se a um primeiro-ministro "decidido a, mesmo abandonado e traído pelo seu sagrado Gaspar, amarrar-se sozinho ao leme do barco para o levar". "Naufrágio" encontra-se aqui e ali, falando-se amiúde de "tempestade perfeita" (Manuela Ferreira Leite), imagem usada também por Pacheco Pereira: "Apesar de o Navio ser Fantasma, há uma regra básica que se aplica: os mortos não ressuscitam." Quem falou em mortos? Toda a gente. Num "ambiente digno de um funeral" (João Marcelino), "Cavaco passou a este Governo uma certidão de óbito" (Marina Costa Lobo) e agora "o Governo morreu" (Leonel Moura). Mas "o falecido Governo em funções só será enterrado em Junho de 2014. Entretanto fica insepulto a encher o país de moscas" (Sérgio Sousa Pinto). Pacheco Pereira parece concordar: "Podem vaguear pelas sombras do mundo, podem procurar um porto inexistente, podem assombrar os vivos. Mas o Governo está morto, mesmo que não esteja enterrado. Podem colocá-lo de pé com um andaime nas costas, injectá-lo com formol, pintá-lo com cera, empalhá-lo, mas morto está e vai continuar a estar."

 

Saiamos do mundo dos mortos para o mundo dos loucos. Sim, dos loucos, pois "afinal a loucura na governação preocupa e angustia", cofia Marques Mendes. Luís Reis cita "Uma Certa Quantidade", de Cesariny, a propósito do "poema surrealista encenado nos últimos dias no palco da política portuguesa". Ferreira Fernandes não sabe "como não aceitar as mais loucas bizarrias" no meio de uma "patética crise política" (Viriato Soromenho-Marques) protagonizada por "uns tristes malucos do riso" (Fernanda Câncio) num país "transformado num terreno baldio da Europa" (Pedro Norton) governado por "dois bêbados que se encostam um ao outro para não caírem" (José Miguel Júdice). O caso é imprevisível. Depois de o ministro Marques Guedes responder que só "os astros" sabem o que vai acontecer ao Governo, Carlos Fiolhais proclama que "a astrologia substituiu a politologia" e cita mesmo as cartas da Maya. Portugal é agora "a gaiola das malucas" (Miguel Alexandre Ganhão), onde há "seguidores desse grande maluco que era o Miguel Bombarda" (André Macedo). Um dia, Alexandre O'Neill perguntou: "Ó Portugal, se fosses só três sílabas", mas agora nada feito. O país é "um imenso bar de alterne", adita Miguel Ganhão, e "neste bordel quem manda é o cio do poder".

 

Da loucura para o caos. Luís Pedro Nunes parece inspirar-se no "Efeito Borboleta": Uma cuspidela leva Gaspar à demissão que leva Portas à demissão que leva os juros a disparar que leva à ingovernabilidade que leva a um segundo resgate que leva a mais austeridade que leva ao tipo que mandou a cuspidela a ficar mais à rasca no supermercado". Gaspar ainda é chamado de "narciso" por Pedro Norton, Maria Luís Albuquerque fica-se por ser chamada por Eduardo Cabrita de "Swap Harakiri Girl", mas ambos são apesar de tudo mais poupados que Paulo Portas. Com o futuro ex-ministro dos Negócios Estrangeiros é um vê se te avias: "um salta-pocinhas" (Mário Soares) "bailarino" (José Sócrates) que fez uma "uma pirueta demasiado arriscada" (Pedro Nuno Santos), "teve um chilique" (Rui Tavares) ou a quem deu "uma coisinha má" (Pedro Norton), mas que agora tem "os pés bem atascados no cimento da coligação" (Luís Rosa). Tudo isto depois de mil piadas com a palavra irrevogável e com o "Eu fico" que Paulo Portas usou numa campanha eleitoral para a Câmara Municipal de Lisboa: "Eu fico… com tudo", escreveu Luís Menezes Leitão, sobre o que então parecia um reforço de poderes no Governo dado ao líder do CDS, como se fosse "uma espécie de caixa de areia com brinquedos só para ele" (Rui Tavares).

 

E assim chegamos à miudagem. "Parece uma brincadeira de garotos, de adolescentes, de pessoas que não têm sentido de Estado", disse Miguel Veiga. "Sinceramente, nunca esperei escrever isto - considerar os principais responsáveis do Governo um bando de garotos", concordou Henrique Monteiro. Alberto João Jardim aconselha a que os meninos "não brinquem às eleições" e António Capucho admoesta que "o ideal seria o Presidente da República pôr os meninos de castigo no Parlamento". Até porque, para Pedro Norton, "o Presidente está transformado no baby-sitter". Mas há outros curativos. José Manuel Fernandes esclarece que "a solução tradicional para meter as crianças na ordem - um par de estaladas -, perdoem-me os puristas, teria até a vantagem de aliviar a nossa fúria." Marcelo Rebelo de Sousa chegou às consequências: o Presidente deu mesmo "um estalo na classe política", embora Eduardo Oliveira e Silva ache que o murro foi "na mesa" e André Macedo prefira considerar o método de Cavaco como sendo "às três pancadas". "Tivesse o Governo nascido com mais gajos normais" e tudo teria sido diferente, suspira Pedro Norton. Mas Adelino Maltez considera que "o normal é haver anormais, porque governar é gerir crises."

 

Vasco Graça Moura diz que foi talvez do calor. Carlos Fiolhais não sabe "que raio de sol num destes dias de canícula bateu na moleirinha do ministro Paulo Portas". Ferreira Fernandes partilha a apreensão e a exposição solar: "calcule-se o efeito sobre a moleirinha de uma presidente de um parlamento". Sim, calcule-se... A verdade é que muitas destas figuras de estilo assentam na mediatização, na espectacularização da política, mesmo quando ela se revela uma "ópera-bufa" (Nuno Saraiva). João Quadros tem "inveja da malta do bigbrother que não sabe o que se passa". Fernando Sobral ri menos: "Nada justifica este espectáculo degradante a que assistimos e que está ao nível do "Big Brother" e do "Splash!". Este Governo é um espantalho que já nem move com o vento nem assusta pardais."

 

Metáforas bélicas (como "a bomba atómica ao retardador" que, segundo Pedro Silva Pereira, o Presidente), de folhetim, de saúde e da insanidade, mas também do casamento para explicar uma coligação em que há divórcio, união de facto, casamento por conveniência. "O novo Governo é um trambolho desprezível", sentencia Baptista Bastos. Eis "o maquiavelismo da retórica", avisa João Adelino Maltez. E quando já faltam palavras, não faltam palavras. Que as diga Rui Tavares: "Não há palavras já inventadas que descrevam esta nova situação: absurreal, alucinática, seria grotescómica se não fosse suicidente". Está tudo explicado.

 

Nota: As dezenas de citações usadas neste texto foram originalmente publicadas em diversas fontes: Público, DN, JN, CM, DE, Negócios, i, Visão, Expresso, Sábado, SIC Notícias, RTP, bem como blogues e as redes sociais Twitter e Facebook.

 

Pedro Santos Guerreiro

Jornal de Negócios - Weekend - 12 de Julho de 2013

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publicado às 23:12

 

Há dez anos já íamos todos morrer. Há dez anos já tínhamos pântano político e tanga no Estado. Há dez anos as reformas já eram todas para já e acabavam sendo nunca. Há dez anos as mesmas pessoas de hoje enchiam a boca de feitos e esvaziavam a mão de defeitos. Há dez anos já havia todas as mentiras, todos os mentirosos e todos a quem mentiam. Há dez anos já havia interesses, lóbis, corrupção, desigualdades, pobreza, proteccionismo, impunidade, compadrio, desesperança, défice, dívida, partidos políticos e políticos partidos.

Há dez anos Portugal já era o que ainda era. E já havia génio. Inquietação. Vontade contra a moinha. Insatisfação com a insatisfação. E já havia zanga, fúria, urros, hurras. A sensação frequente de que estamos sempre a escrever o mesmo editorial porque nada muda. A alegria rara de que a esperança pode mesmo ser inventada. A constatação final de que dez anos não é nada e foi tanto.

Em cinco Governos, apenas um cumpriu a legislatura. Houve maioria absolutas, relativas, coligações, dissoluções, escolhas sem eleições. As retomas nunca chegaram, o défice foi sempre manipulado, a dívida foi sempre escondida, a competitividade foi fraca, a economia foi fraca, a carne foi fraca. Os negócios foram fortes. Privatizações da PT, EDP, Galp, REN, Portucel, ANA. O maior negócio de sempre, a impensável oferta da Sonae para comprar a PT, num ano em que o país pensava que era rico, quando também o BCP quis comprar o BPI, duas OPA hostis falhadas com consequências tão diferentes. A "golden share". A ruína do BCP, assistida por uma CGD infamemente politizada, no caso empresarial mais sujo de que há memória, em que até fotografias íntimas comprometedoras de pessoas envolvidas nos foram propostas (e por nós recusadas). Os assassinatos de carácter com fugas de informação selectivas em violação do segredo de justiça. A vergonha manipuladora das escutas. Espionagem. Os casos de promiscuidade entre empresas e política: o Furacão, o Mensalão, o Face Oculta, o Polvo, o Monte Branco. O escândalo do BPN. Do BPP. As PPP, os swaps, os estádios, as estradas, o aeroporto, o TGV. Mas também a salvação de impérios, como a Jerónimo Martins. O sucesso da Renova, da Bial, da Frulact, do banco Big, da Portucel, da Mota-Engil, da Sovena, da Autoeuropa, de milhares de filiais, de fornecedores de multinacionais, de grandes pequenas empresas desconhecidas. E a intervenção externa. A austeridade. O protectorado. A crise financeira. A crise económica. A crise social. O desemprego. A geração sem respostas, sem propostas, sem apostas, a geração sem nada.

A Europa afunda-se em resgates, o euro claudica. Durão mudou de nome para Barroso. Aparece Obama. Esmaece Mandela. O mundo sacode-se, com a revolta de uma larga região do hemisfério sul pobre mas emergente contra outra larga região do hemisfério norte rico mas decadente. O mundo ocidental atolado em dívidas. O mundo oriental a tornar-se potência. Uma demografia explosiva e desequilibrada. Centenas de milhões de seres humanos a sair da pobreza. A exigirem mais do seu sistema político. A circularem livremente em redes sociais. Primavera Árabe. África em crescimento astral.

Nestes dez primeiros anos do Negócios como jornal diário os dias foram mais que notícia. Foram um pentagrama de uma era em mudança, com as democracias, o capitalismo, o liberalismo, o sistema financeiro, os equilíbrios mundiais, a Europa em solavanco. É a frustração de ver um país a afundar-se na carência do futuro. É a paixão de noticiar um tempo histórico. Há dez anos Portugal já era Portugal. Há dez anos já íamos todos viver. Já queríamos partir tudo, já queríamos construir tudo, já queríamos desistir, insistir, resistir, amar, desesperar, esperar, não esperar. Perdemos muito. Mas também ganhámos muito na década perdida. Às vezes parece que a história nos desfaz. Mas somos nós quem faz a história. Jornalistas, leitores, incluídos, excluídos, temerários, amotinados, nós somos os escritores da História. "Que há-de ser de nós?", perguntava Sérgio Godinho. A resposta é nossa. Porque mesmo quando a notícia é sobre outras gentes, políticos, empresários, polícias, ladrões, sucessos, fracassos, geografias e povos distantes, a notícia somos sempre nós.


Pedro Santos Guerreiro (PSG)

Director do Jornal de Negócios

Edição de aniversário - 10 anos

27 de Junho de 2013


(nota: sou leitor de Pedro Santos Guerreiro que, em minha opinião, pensa bem, escreve bem, estuda muito, tem memória e manifesta muita coragem, atributos que não lhe retiro quando dele discordo. O texto acima publicado merece uma moldura...para ler e guardar, todos os dias!)

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