Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


E Deus?

05.11.17

varandas-de-avô-580x333.jpg

"Enquanto o fogo é pequeno e tem juízo é o maior amigo do homem: aquece-o no Inverno, cozinha-lhe a comida, alumia-o durante a noite. Mas quando o fogo cresce de mais, zanga-se, enlouquece e fica mais ávido, mais cruel e mais perigoso do que todos os animais ferozes."

Sophia de Mello Breyner Andresen in “A Menina do Mar”

 

Antes de 15 de Outubro de 2017.

Depois de 15 de Outubro de 2017.

É assim que se divide a História contemporânea de Oliveira do Hospital, da região centro interior...e de Portugal.

É assim a vida em Oliveira do Hospital: há um antes e um depois do pior dia das nossas vidas, do maior incêndio de sempre, da maior tragédia da nossa história.

A nossa riqueza pintava-se de verde; a nossa tristeza pinta-se de preto: a cor da dor. A nova cor do Interior.

Vamos poupar nos palavrões: consolo do desespero; nos adjetivos: conforto para o indizível; nas análises: abundam os especialistas do dia seguinte; e nos juízos: tantos já são os atiradores.

O dia 15 de Outubro foi o dia em que faltou tudo, falhou tudo e não sobrou (quase) nada: Ardeu. Ardemos.

O clima mudou, aqueceu, secou, secou-nos.

A floresta mudou, menos limpa e menos bem frequentada por árvores que crescem muito e depressa, densificou, cercou-nos.

O resto nada mudou: falta prevenção, falta ação, falta responsabilidade.

Faltaram meios (dispensados!!!), vigias (canceladas!!!) e comunicações (avariadas!!!). É a nossa costumeira irresponsabilidade, sustentada na nossa idiossincrática impunidade - ninguém vai preso, escuta-se.

O criminoso soltou o fogo e o fogo soltou-se nas asas do vento e queimou (quase) tudo: Ardeu. Ardemos.

Quando há uma tragédia há uma notícia: a tragédia. Imedível e inquantificável, esta mais do que qualquer outra. Oliveira do Hospital queimado é agora todos os dias noticiado. E visitado. Contam-se os mortos, as ruínas das casas, as vidas destruídas, as empresas em escombros, a floresta perdida como se fosse o resultado do jogo…do fogo! Dói. 

O dia 15 de Outubro foi o dia em que falhou tudo, faltou tudo, falhámos todos: governos (imperdoável) e governados. Sim, Nós que teimamos em sermos cada vez menos a ir votar, a sermos muitos a votar sem sentido e sem sentir, a sermos cada vez mais a não querer saber de nada nem de coisa nenhuma: passamos a vida a bater no estado e quando corre mal clamamos e insultamos o Estado, o Estado que também somos Nós.

Na manhã seguinte ao terror, à noite que foi para muitos a noite do fim deles no mundo, quando o fogo de tanto queimar deixou passar, cheguei a Oliveira do Hospital.

Oliveira do Hospital é a minha igreja, onde me (re)encontro, onde respiro, onde me respiro.

Entre fumo, pequenas chamas, sem céu, com os pés sobre cinzas e sem ar que não fosse queimado, de abraço em abraço e com as lágrimas metidas para dentro, percorri (quase) todo o concelho.

Quando parei num dos meus lugares de culto, no meu altar - o miradouro de Avô - envolvido num negro absoluto e apocalíptico, a dor foi tão forte, tão aguda, que o rio que me saía dos olhos embrulhou-me na fé, qual foz dos desesperados, e perguntei a Deus:

- Onde estavas?

No dia 15 de Outubro falhou tudo, faltou tudo.

Oliveira do Hospital vai ter que renascer.

Todos vamos ter que renascer. Todos vamos ser precisos. E o Deus de cada um também.

Vitor Neves

 

(publicado no jornal Folha do Centro, 29 de Outubro de 2017)

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:14

Deus sabe que o que aqui vou escrever é algo que penso, e defendo, há muito tempo.

Francisco não sabe! O facto de não saber, não deixa o novo Papa de fora deste escrito. Este Latino das Pampas que parece ser um sinal de esperança para o mundo, algo que já não acontecia desde o aparecimento de Obama, teve uma namorada(!) quando ainda era criança. Ao ler o «curriculum» de vida de Bergoglio, a luz ficou verde para dizer publicamente o que sempre pensei: não entendo e não concordo com o celibato sacerdotal.

Ser Padre não deve ser impeditivo de amar uma mulher. Ser Padre não deve ser impeditivo de ser Pai.

Vamos ser directos e concisos. O espaço que tenho para escrever é curto e o assunto é farto. Deixamos para outro dia variações sobre o mesmo tema, tais como as mulheres poderem ser Padres, homossexualidade, outras religiões, divórcios, etc., etc..

Em tempo de Páscoa, inspirados por Francisco, vamos argumentar de forma saudável, séria, mas simples. E sem usar papamóvel.

Então um homem que sente vocação para servir a Deus, para servir a Igreja, para pregar o amor ao próximo, para dar asas à sua vocação, fica impedido de partilhar a vida com uma mulher? Fica impedido de se apaixonar? Fica impedido de gerar vida, qual acto supremo do amor entre dois seres humanos?

O castigo, sim, o castigo, de um homem que quer dedicar a sua vida a Deus, é não poder sentir como é mágico beijar a mulher que se ama, como é divinal o aconchego de um abraço feminino, como é único e fantástico fazer amor com a mulher da nossa vida,  como é bom acordar ao lado… dela?

Caramba: um homem que ama Deus e que lhe dedica a vida, não pode ter um filho???

Custa a aceitar. Não se entende. Torna sofrido ser crente.

Não acreditamos que Deus, na sua infinita bondade e misericórdia, seja egoísta ao ponto de querer o amor do homem que o ama só para Si, que lhe dedique toda a vida a Si e para Si, e que não lhe permite sequer amar um filho do seu sangue, do seu amor.

Amar a Deus, servir a Deus, não pode ser significado de viver sem a partilha com o seu semelhante, da casa estar sempre vazia, do quarto ser sempre «single», de nunca poder ir à escola esperar pelo filho. Não pode.

Esta praxis antiquíssima, que sobreviveu ao casamento de um Papa(!), não pode obrigar o sacerdote da Igreja Católica, Apostólica e Romana, a não ter família, a família que é um valor que a Igreja (e bem) tanto prega. Não pode.

Chegado aqui, até nos arrepiamos só de pensar na possibilidade de o meu amigo Padre Borges, que muito respeito e prezo, ler “isto”: - Estou lixado! Que me perdoe!

…é que há no celibato algo de anti-natura, e se é anti-natura presta-se à tentação, e da tentação ao pecado…é um instantinho!

…é que se não tivesse havido Adão e Eva não teria havido Padres, ou se, por absurdo, todos fossemos Padres, já cá não havia ninguém.

E tal maldade nem Deus perdoava.  

 

(texto publicado no jornal Folha do Centro, edição de 28 de Março de 2013)   

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 17:59


Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

calendário

Julho 2019

D S T Q Q S S
123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
28293031


Posts mais comentados



Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D