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A covid 19 está a provocar a queda de um avião comercial por dia em Portugal, tal é o número de mortos que contamos todos os dias.

Quando cai um avião perto de nós, todos os outros assuntos caem no arquivo da não relevância.

Se acontece todos os dias, entramos em registo de catástrofe, e em tal registo tudo o resto parece completamente insignificante.

Ainda que bloqueados pelo susto e pelo terror, importa contornar a ilusão de que tudo está parado: não está, não é verdade! E ainda bem, pelo nosso bem coletivo, pela nossa subsistência e pela paz social.

O estafado “a vida continua” é protagonizado por pessoas. São as pessoas que, consequência do que fazem, não podem ficar em casa, não podem usufruir do teletrabalho e, muitas dessas pessoas, não podem sequer evitar os contactos diários com outras pessoas - aqui não se contempla qualquer referência aos profissionais de saúde, mormente aqueles que estão na linha da frente, por serem um grupo que, por estes dias, está acima de tudo e de todos.

Esta é uma desigualdade sócio profissional que a pandemia tem sublinhado de forma vincada e acentua diferenças sociais que, após a saída do pânico em que vivemos, será algo de grande dificuldade de gestão de equilíbrios entre direitos e deveres. Outra desigualdade também muito sublinhada pelo vírus, é a diferença entre quem trabalha no público e no privado, algo muito enfático no Interior.

Acontece que nos últimos tempos, o discurso hegemónico da desigualdade gravita em redor do género, da preferência sexual, da cor da pele, da etnia e da religião.

O vírus obriga a repensar este discurso, promovendo o amargo da (re)inclusão da pobreza e da desigualdade de oportunidades no topo das prioridades das narrativas sobre o que exige atenção.

Uma sociedade assim desigual, potencia todas as formas de desigualdade, dificulta o combate à exclusão, ao crescimento de guetos e aos extremismos.

No Interior tudo isto se agrava com contributo que a desigualdade social empresta ao despovoamento e ao abandono.

Não mais esquecerei a Senhora que, a meio de um destes dias, numa fábrica do Interior, me disse que esta crise “é a prova que o sol quando nasce não é para todos”.

Sim, já antes assim era. Mas sim, com o vírus nota-se mais, muito mais!

Vitor Neves

(publicado no Jornal Folha do Centro, 25 de Janeiro de 2021)

    

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publicado às 11:20

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Um verão sem foguetes.

Um tempo sem festas.

Um Interior mais cheio de silêncio e mais saudoso de sorrisos.

As festas para o Interior são encontros, regressos e saudades. Nos dias das festas, quais ajuntamentos, o Interior parece ser terra de muitos, muito felizes.

O virús ameaçou-nos a saúde e a vida, cortou-nos a liberdade e acabou com as festas – e até o silêncio passou a fazer barulho.

As festas para o Interior são uma espécie de respirar coletivo, um grito de grupo pela vida, entre copos, bifanas e farturas; artistas da rádio e tv, selfies para as redes sociais e o uau costumeiro sob o fogo de artifício do arraial.

As festas para o Interior são o quase tudo para quem quase não tem mais nada, ou como a sua ausência faz parecer o pão (mais) amassado pelo diabo, tal é o vazio da falta do circo.

Um olhar pelo exemplo de Oliveira do Hospital - meses sem festas: sem a festa do queijo serra da estrela, sem a semana cultural e a feira do livro, sem eventos desportivos, sem a noite das marchas, sem a Expoh, sem nada.

Com tanto nada, sobrou pouco para celebrar a vida no concelho rei da festa da beira interior.

Talvez não se volte a escutar tão cedo, quem lhe chamava “O Município das Festas”, após tamanha queda na realidade do buraco dos dias sem folia.

A Covid 19 apagou a luz do Interior, fechou os sorrisos, confinou os abraços dos reencontros e tapou a alegria com a máscara da tristeza.

O vírus provoca dor e perda um pouco por todo lado. No Interior, também. Mas no Interior o vírus parece ter tirado o que faltava tirar: a festa.

Que esta crónica, da morte da festa no Interior, tenha sido manifestamente exagerada.

Que esta crónica, não seja mais uma página de uma morte anunciada.

O Interior precisa de voltar a sentir a ressaca do “Foi bonita a festa, pá!”.

E depressa, pá!

Vitor Neves

(publicado no jornal Folha do Centro, 6 de Agosto de 2020)

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publicado às 19:16

Medodemia

05.04.20

coronavirus1.jpg

- Tenho medo!

Tenho medo que o vírus se encontre com os meus filhos.

Tenho medo que daqui a um instante não consiga pagar salários.

Tenho medo que daqui a uns dias chegue a desgraça de faltar tudo.

Tenho medo de acordar e sentir que viver é…sobreviver!

Tenho medo pelo tudo que está a acontecer, mas não tenho medo de ter medo.

Também não tenho medo de o dizer em público. Tenho até medo que o meu “tenho medo” seja universal.

Tenho medo, mas quero seguir. Vou respeitar, cuidar, mas não vou parar. Não quero, não quero parar. Tão pouco vou parar de acreditar que isto vai passar.

Confesso, no entanto, que me custa escrever…

Uma “coisa” chamada coronavírus, uma “coisa” também chamada Covid 19, num ápice senta o ser humano na sua imensa fragilidade, na sua indizível impotência.

Logo por estes dias, em que parecia que tanta tecnologia, tanta ciência, tanta cura impossível, tanta longevidade, tanta ilusão de eternidade, tinham transformado o nosso ser humano num ser invencível e inexpugnável.

Afinal…

Afinal, de repente, tudo isto é frágil, demasiado frágil e parece que tudo se vai desmoronar, tal a velocidade com que se alterou o modo como vivíamos, se limitou a liberdade que tínhamos, se instalou o limite em tudo o que fazemos, queremos ou imaginamos.

Afinal, quase sem darmos conta, damos conta que não há esconderijo, não há fuga possível, estamos encostados á parede! E um sentir incrédulo, que não se consegue desenhar, magoa-nos até ao osso quando olhamos todas as nossas prioridades e tudo parece ter deixado de fazer sentido. Sim, o vírus roubou o sentido ao que nos fazia sentido…

O ser humano tem uma capacidade ilimitada de se socorrer do irracional, do despropositado, do inconsciente, do sonho para se manter á tona e continuar, e continuar agarrado a tudo, até ao ditado que um dia sentenciou que não há mal que sempre dure.

…no filme “Western Stars”, a voz de Bruce Springsteen diz-nos: temos que continuar a caminhar, no escuro, sabendo que é lá que está a manhã seguinte.

Vitor Neves

(publicado no jornal Folha do Centro, 12 Março de 2020)

ps.: Fez bem o Município de Oliveira do Hospital em cancelar a Festa do Queijo Serra da Estrela. A coragem do bom senso em uma decisão acertada.      

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publicado às 18:28


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