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Vende-se

21.12.12

Aluga-se. Arrenda-se. Vende-se.

Arrenda-se. Vende-se. Aluga-se.

Vende-se. Aluga-se. Arrenda-se.

Lisboa. Fim de tarde de final de verão.

Percorremos as ruas ex-libris da capital e perdemos as contas aos anúncios, em placas e outros suportes de mensagem mais menos conseguidos, que abundam nas casas, nos prédios, nas lojas. São tantos, que mais parecem súplicas de gente que não teve alternativa que não fosse…

Aluga-se. Arrenda-se. Vende-se. Arrenda-se. Vende-se. Aluga-se.

Porto. Um dia de Novembro.

Deixamos o carro deslizar nas ruas e ao olhar parece que muita gente partiu. Tantas são as casas à venda, tantos são os apartamentos disponíveis, tantas são as lojas onde outrora se vendiam ilusões e coisas úteis. São inúmeras, as placas das imobiliárias, que até se atropelam em sobreposição. Muitas já evidenciam os sinais do tempo que passou desde que ali foram apostas, na busca desesperada de interessados…

Aluga-se. Arrenda-se. Vende-se. Arrenda-se. Vende-se. Aluga-se.

Coimbra. Uma viagem ao passado embrulhado em saudade.

Os estudantes já não chegam para deitar a baixo tantas placas que anunciam “oportunidades”. Onde antigamente faltavam quartos, agora sobram casas, apartamentos. Há prédios inteiros, acabadinhos de fresco, sem ocupantes! Há prédios que ainda não se podem considerar inteiros e parece longe o dia em que vão chegar a ser! Ficaram assim, a meio da construção, abandonados.

Aluga-se. Arrenda-se. Vende-se. Arrenda-se. Vende-se. Aluga-se.

Braga. De dia para a noite, em Dezembro.

Zonas industriais(?) em que mais de metade do número de armazéns edificados ficaram… sem nada! Em alguns daqueles armazéns já nem a placa a anunciar a sua condição existe.

Há ruas da cidade em que há muito mais placas de imobiliárias do que luzes de natal. Há ruas inteiras em que a maioria das lojas fecharam. Uma delas anunciava que era a «Casa da China».

Aluga-se. Arrenda-se. Vende-se. Arrenda-se. Vende-se. Aluga-se.

Oliveira do Hospital. Uma volta a pé com o moleskine no bolso.

A cidade do interior com os sinais do estado do resto do país. Casas que se fecharam para sempre. Lojas que fecharam. Lojas que nunca foram ocupadas. O Largo está quase sem negócios, sem nada.

Aluga-se. Arrenda-se. Vende-se. Tudo. De todos. Moradias, casas, apartamentos, lojas, quintas, cafés, restaurantes, carros….

Tudo a bom preço. A preço de saldo. Está assim o país: à venda e sem compradores. O dinheiro falta, escondeu-se, fugiu.

Folheei o moleskine, onde se guardava o apontamento em que as letras falavam do vazio da loja, cheio de papéis amarrotados e sujos. Entre os destroços podia-se ler: «Feliz Natal 2011».  

 

(Publicado no jornal Folha do Centro, edição de 21 de Dezembro de 2012)

 

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publicado às 17:04



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