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( Um belo texto que não resisto em aqui partilhar. Um postal ilustrado do Julho político de 2013. Para memória futura.) 

Quer perceber o que se está a passar na política portuguesa? Ora, é fácil. É uma gaiola das malucas onde dois bêbados se encostam para não cair depois de andarem de mota no poço da morte.
Era dar-lhes um valente par de estalos. Enfim, um trambolho, é o que isto é. Uma coisa grotescómica. Palavra de jornalistas, políticos, comentadores, analistas e de uma série de personalidades com mais ou menos prestígio que vão escrevendo sobre a crise política que começou no dia 1 de Julho, com a demissão de Vítor Gaspar. Já bem depois da cena do palhaço. Quem diria? Pelos vistos, todos!

 

"Era uma metáfora!" Assunção Esteves bem tentava explicar-se ontem à noite, depois de ter feito uma citação, contra os manifestantes expulsos do Parlamento, de uma frase originalmente dita contra o regime nazi. "Não podemos deixar, como dizia a Simone de Beauvoir, que os nossos carrascos nos criem maus costumes". Uma metáfora. Uma metáfora? Mais uma plantada no jardim das figuras de estilo, que ganhou muitas flores desde que a crise política eclodiu. De "galinhas sem cabeça" a "bêbedos agarrados um contra o outro", diz-se e escreve-se de tudo. É a linguagem nesta crise. Ou é a linguagem desta crise. Lembra-se do palhaço? Não é preciso ir tão longe. A última semana e meia basta para estofar almofadas, umas fofas outras duras, de metáforas, imagens, metonímias, alegorias, perífrases e outras figuras de grande estilo.

 

"É como se dois suicidas se apaixonassem a meio da queda e acabassem por cair numa pilha de colchões", escreveu João Miguel Tavares, um dos cronistas que mais se esforçou na caracterização da crise política, "uma coisa tipo poço da morte, com os irmãos Pedro & Paulo em equilibrismos alucinados em cima de uma mota em alta velocidade". A imagem sugere alto risco. Mas também espectáculo e jogo, que habitam muitas figuras de estilo usadas por estes dias. Casino, poker, xadrez, roleta (e até roleta russa) são imagens repetidas para expressar o ambiente de negociação, de imprevisibilidade, de sorte e azar. Falando em motas: um partido numa coligação "não pode ser uma espécie de 'sidecar' sem travões nem guiador nem embraiagem", lembra Bagão Félix. Aceleremos.

 

Da condução, ou falta dela, escreveu ainda Fernanda Câncio, ao referir-se a um primeiro-ministro "decidido a, mesmo abandonado e traído pelo seu sagrado Gaspar, amarrar-se sozinho ao leme do barco para o levar". "Naufrágio" encontra-se aqui e ali, falando-se amiúde de "tempestade perfeita" (Manuela Ferreira Leite), imagem usada também por Pacheco Pereira: "Apesar de o Navio ser Fantasma, há uma regra básica que se aplica: os mortos não ressuscitam." Quem falou em mortos? Toda a gente. Num "ambiente digno de um funeral" (João Marcelino), "Cavaco passou a este Governo uma certidão de óbito" (Marina Costa Lobo) e agora "o Governo morreu" (Leonel Moura). Mas "o falecido Governo em funções só será enterrado em Junho de 2014. Entretanto fica insepulto a encher o país de moscas" (Sérgio Sousa Pinto). Pacheco Pereira parece concordar: "Podem vaguear pelas sombras do mundo, podem procurar um porto inexistente, podem assombrar os vivos. Mas o Governo está morto, mesmo que não esteja enterrado. Podem colocá-lo de pé com um andaime nas costas, injectá-lo com formol, pintá-lo com cera, empalhá-lo, mas morto está e vai continuar a estar."

 

Saiamos do mundo dos mortos para o mundo dos loucos. Sim, dos loucos, pois "afinal a loucura na governação preocupa e angustia", cofia Marques Mendes. Luís Reis cita "Uma Certa Quantidade", de Cesariny, a propósito do "poema surrealista encenado nos últimos dias no palco da política portuguesa". Ferreira Fernandes não sabe "como não aceitar as mais loucas bizarrias" no meio de uma "patética crise política" (Viriato Soromenho-Marques) protagonizada por "uns tristes malucos do riso" (Fernanda Câncio) num país "transformado num terreno baldio da Europa" (Pedro Norton) governado por "dois bêbados que se encostam um ao outro para não caírem" (José Miguel Júdice). O caso é imprevisível. Depois de o ministro Marques Guedes responder que só "os astros" sabem o que vai acontecer ao Governo, Carlos Fiolhais proclama que "a astrologia substituiu a politologia" e cita mesmo as cartas da Maya. Portugal é agora "a gaiola das malucas" (Miguel Alexandre Ganhão), onde há "seguidores desse grande maluco que era o Miguel Bombarda" (André Macedo). Um dia, Alexandre O'Neill perguntou: "Ó Portugal, se fosses só três sílabas", mas agora nada feito. O país é "um imenso bar de alterne", adita Miguel Ganhão, e "neste bordel quem manda é o cio do poder".

 

Da loucura para o caos. Luís Pedro Nunes parece inspirar-se no "Efeito Borboleta": Uma cuspidela leva Gaspar à demissão que leva Portas à demissão que leva os juros a disparar que leva à ingovernabilidade que leva a um segundo resgate que leva a mais austeridade que leva ao tipo que mandou a cuspidela a ficar mais à rasca no supermercado". Gaspar ainda é chamado de "narciso" por Pedro Norton, Maria Luís Albuquerque fica-se por ser chamada por Eduardo Cabrita de "Swap Harakiri Girl", mas ambos são apesar de tudo mais poupados que Paulo Portas. Com o futuro ex-ministro dos Negócios Estrangeiros é um vê se te avias: "um salta-pocinhas" (Mário Soares) "bailarino" (José Sócrates) que fez uma "uma pirueta demasiado arriscada" (Pedro Nuno Santos), "teve um chilique" (Rui Tavares) ou a quem deu "uma coisinha má" (Pedro Norton), mas que agora tem "os pés bem atascados no cimento da coligação" (Luís Rosa). Tudo isto depois de mil piadas com a palavra irrevogável e com o "Eu fico" que Paulo Portas usou numa campanha eleitoral para a Câmara Municipal de Lisboa: "Eu fico… com tudo", escreveu Luís Menezes Leitão, sobre o que então parecia um reforço de poderes no Governo dado ao líder do CDS, como se fosse "uma espécie de caixa de areia com brinquedos só para ele" (Rui Tavares).

 

E assim chegamos à miudagem. "Parece uma brincadeira de garotos, de adolescentes, de pessoas que não têm sentido de Estado", disse Miguel Veiga. "Sinceramente, nunca esperei escrever isto - considerar os principais responsáveis do Governo um bando de garotos", concordou Henrique Monteiro. Alberto João Jardim aconselha a que os meninos "não brinquem às eleições" e António Capucho admoesta que "o ideal seria o Presidente da República pôr os meninos de castigo no Parlamento". Até porque, para Pedro Norton, "o Presidente está transformado no baby-sitter". Mas há outros curativos. José Manuel Fernandes esclarece que "a solução tradicional para meter as crianças na ordem - um par de estaladas -, perdoem-me os puristas, teria até a vantagem de aliviar a nossa fúria." Marcelo Rebelo de Sousa chegou às consequências: o Presidente deu mesmo "um estalo na classe política", embora Eduardo Oliveira e Silva ache que o murro foi "na mesa" e André Macedo prefira considerar o método de Cavaco como sendo "às três pancadas". "Tivesse o Governo nascido com mais gajos normais" e tudo teria sido diferente, suspira Pedro Norton. Mas Adelino Maltez considera que "o normal é haver anormais, porque governar é gerir crises."

 

Vasco Graça Moura diz que foi talvez do calor. Carlos Fiolhais não sabe "que raio de sol num destes dias de canícula bateu na moleirinha do ministro Paulo Portas". Ferreira Fernandes partilha a apreensão e a exposição solar: "calcule-se o efeito sobre a moleirinha de uma presidente de um parlamento". Sim, calcule-se... A verdade é que muitas destas figuras de estilo assentam na mediatização, na espectacularização da política, mesmo quando ela se revela uma "ópera-bufa" (Nuno Saraiva). João Quadros tem "inveja da malta do bigbrother que não sabe o que se passa". Fernando Sobral ri menos: "Nada justifica este espectáculo degradante a que assistimos e que está ao nível do "Big Brother" e do "Splash!". Este Governo é um espantalho que já nem move com o vento nem assusta pardais."

 

Metáforas bélicas (como "a bomba atómica ao retardador" que, segundo Pedro Silva Pereira, o Presidente), de folhetim, de saúde e da insanidade, mas também do casamento para explicar uma coligação em que há divórcio, união de facto, casamento por conveniência. "O novo Governo é um trambolho desprezível", sentencia Baptista Bastos. Eis "o maquiavelismo da retórica", avisa João Adelino Maltez. E quando já faltam palavras, não faltam palavras. Que as diga Rui Tavares: "Não há palavras já inventadas que descrevam esta nova situação: absurreal, alucinática, seria grotescómica se não fosse suicidente". Está tudo explicado.

 

Nota: As dezenas de citações usadas neste texto foram originalmente publicadas em diversas fontes: Público, DN, JN, CM, DE, Negócios, i, Visão, Expresso, Sábado, SIC Notícias, RTP, bem como blogues e as redes sociais Twitter e Facebook.

 

Pedro Santos Guerreiro

Jornal de Negócios - Weekend - 12 de Julho de 2013

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