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O museu do azeite é uma Obra.

A visita foi breve, mas deu para ver que o museu é muito mais que a evocação do caminho estreito da azeitona para transpirar azeite.

O museu do azeite é uma ode de arquitetura, uma vénia ao passado com o toque digital do presente, um espaço bem desenhado e bem inserido na natureza do local, um conteúdo de conhecimento que ali assegura que chegará ao futuro.

O museu chega até a ter graça: a célebre, tradicional e rústica definição de desconhecimento - “sei tanto disto como de lagares de azeite” - deixa de ser o que era, depois de uma visita ao muito Saber que ali se mostra. Ou como o azeite pode juntar no topo “outra” verdade: “sei tanto disto como de lagares de azeite” é saber mesmo...depois de ter ido ao museu!

A Bobadela, Oliveira do Hospital, a Região e o País podem ter ali um verdadeiro ícone de ovos de ouro, assim o poder Público saiba potenciar a coragem, o mérito, a visão e o bom gosto de um investidor Privado.

O Público e o Privado raramente se abraçam com facilidade. Há exemplos desta “dificuldade” em muitos locais e no local de Oliveira do Hospital também.

Estranha-se, por exemplo, que o museu ainda não tenha sido objeto da justificada e necessária sinalética.

Três turistas espanholas, com quem falei junto ao arco romano, desconheciam em absoluto o que, dali a nada, estaria à vista - o Museu do Azeite. E dali mais abaixo, um popular lamentou-se comigo sobre a falta de informação: uma tristeza, desabafou.

Em devido contexto, o Museu do Azeite pode ser para Oliveira do Hospital e para a região centro-Interior, o que o Museu de Serralves foi e é para o Porto e para a região norte - um polo de atração, um traço de identidade, uma casa distinta de cultura.

Veremos se, desta vez, o Interior é capaz disto.

Veremos se quem está no Poder no Interior, visita o museu, e fica a saber tanto de lagares de azeite que sabe tratar disto; ou sabem tanto disto como de lagares de azeite e o museu nunca será mais do que um museu!

A resposta não demorará a vir ao de cima, como o azeite.

Vitor Neves

(publicado no jornal Folha do Centro, 25 de Janeiro de 2019)

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publicado às 21:30

Natal Verde(?)

28.12.18

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O preto do postal de Natal do Interior apagou-se.

Passou um ano e a Natureza fez a sua parte do Renascer. Passou um ano e parece que a natureza do ser humano não fez tão bem a sua parte.

Um Natal depois do Natal a seguir ao fogo, fica a ideia que muito aconteceu ao contrário.

Depois da “festa” do Primeiro Ano Depois, há muito Não quando se vê tudo através do retrovisor.

A solidariedade Não foi sempre bem gerida; a honestidade Não foi o pressuposto de todos; a celeridade Não foi a esperada; a unidade Não foi sempre realidade.

Neste tempo de festas, procure dar tempo ao tempo de olhar a Natureza - o preto do Natal passado morreu.

A força da Natureza esmagou o preto com o verde, a cor do Renascer.

Há paisagens que (quase) já não permitem a memória do fogo: impressionante.

A Natureza devia estar aborrecida com a natureza do ser humano. E há seres humanos que deviam usar a sua natureza para converter, para contagiar, para provocar a pobre natureza de Outros.

Há pessoas que assumiram o Renascer como uma prioridade de vida e inspirados pela Natureza e pela força da sua natureza fizeram a sua reconstrução. Outras, Não.

É desconcertante pensar que também desta vez o Interior não foi capaz de ser Todos. Só mesmo a Natureza está Toda verde…e viva!

Neste natal já não cheira ao queimado, mas cheira que muito importa fazer para não se continuar a queimar o futuro!

Há uma dolorosa ironia que agora nos queima: a chama do fogo apagou-se.

Sim, os ministros deixaram de passar; os turistas de ocasião deixaram de vir; a solidariedade deixou de chegar; as notícias deixaram de sair.

Ou o Interior é veloz na reconstrução, inteligente a olhar em frente e corajoso para se deixar de lamentos; ou o Interior será cada vez mais deserto no labirinto do seu próprio interior.

Este Natal Verde que a Natureza oferece ao Interior, é um mandato para fazer futuro.

Vitor Neves  

(publicado no jornal Folha do Centro, 21 de Dezembro 2018)

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publicado às 21:59

Morte Shopping!

18.12.18

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É de Oliveira do Hospital? Não? Então não leia, por favor.

Este texto é só para si, para mim, para nós que somos da cidade do Cavaleiro.

A tristeza que muito alimenta a poesia, aqui vai ter que ser escrita em prosa grossa.

Numa visita relâmpago à cidade e após um almoço ainda mais veloz, fui tomar café à outra parte da frente, que sempre parece ser a parte de traz, do shopping center areias.

Não ia ali há anos. Decidi entrar para ver como estava o shopping.

Foi um choque frontal, brutal. Ultrapassado, gasto, envelhecido, descuidado, (quase) vazio, sujo.

Desolador.

O shopping fugiu dali. Recordei lojas que ficaram na memória da minha vida: a Top Sport do meu amigo e já falecido António Mendonça; a Udisco do meu amigo Luís Moreira. E outras…

O Shopping era a cereja que suportava o bolo que era o prédio areias, onde fui muitas vezes feliz. Foi ali que a Rádio Boa Nova começou e comecei ali com ela, até hoje; foi ali que dei os primeiros passos para entrar no mundo da gestão das empresas, até hoje; era ali que o meu amigo e também já falecido Neca Areias, abria a porta do último andar para me dizer que sim a mais um contrato de publicidade para a Rádio; talvez tenha sido ali que alguém, com o topo sob os pés, teve a ideia dos drones, tal a vista, tal a ilusão que nos fazia voar a imaginação e o prazer de ver por cima e até lá longe.

O Shopping Areias já não existe. Já nem resiste. É um espaço triste. 

No coração da cidade, ao lado do Café Portugal e da Câmara Municipal?! Como foi possível, como é possível?

Talvez o espaço já não seja espaço para o negócio. Talvez já não haja negócio para o espaço. Talvez seja preciso fazer obras, pensar o espaço, dar outro uso ao espaço…ou fechar o espaço!

A localização é demasiado boa e demasiado importante para a cidade: se “aquilo” não pode sair dali, não pode estar assim. “Aquilo” precisa de ser outra coisa: nem com sorte se livra da morte, o shopping. 

O Shopping areias não é caso único. É um caso evidente de um dos grandes dilemas do interior - o nada não gera dinheiro, sem dinheiro só fica o nada.

E não adianta nada apontar o dedo “ao dono”. Não há negócio, não há investimento.

Aqui está um caso que o poder público não pode ignorar. Pode e deve cuidar. 

Vitor Neves

(publicado no jornal Folha do Centro, 7 de Dezembro 2018)

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publicado às 22:03

Conhecimento

26.11.18

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Há dias que nos encostam à parede.

A pergunta é sempre a mesma e chega sempre em veículo provocador e mais ou menos agressivo: vá, diz lá, como é que “resolvias” o problema do Interior?

Digo sempre a resposta com o mesmo conteúdo.

Nunca digo estradas, emprego, estado ou qualquer coisa que tal, tal como investimento. Sempre digo...Conhecimento!

Isto não é filosofia, nem uma lufada de sofisticada contemporaneidade.

Isto é a realidade, a actualidade.

Responder Conhecimento serve para tudo e (não) serve para nada. Conhecimento é o tudo demasiado próximo de dar o passo em frente no abismo do nada – mas é por aqui.

Tal como é nada dizer que a internet liga o mundo todo ao Conhecimento. A internet ajuda, facilita mas não resolve e assusta, como se notou na recente festa da Web Summit em Lisboa.

O Interior só vai conseguir reestruturar-se, mudar-se, ajustar-se, transformar-se e manter, prender e absorver pessoas, se ensinar, partilhar e desenvolver Conhecimento.

É muito difícil ir por dentro desta necessidade, de quem deseja um Interior com futuro, numa impressão num canto de uma folha de jornal.

Chegar ao Conhecimento não é fácil, é complexo, dá trabalho, é duro.

Se assim é, importa também ser duro na dimensão curta da mensagem: o Interior precisa de uma militância fascista pelo Conhecimento. Assim mesmo. O Interior precisa que cada um dos seus partidários, seja um exemplar de Bolsonaro-em-bom, no respeito pela Bíblia e pela Constituição do Conhecimento.

Ao usar a palavra “exemplar”, surge a sugestão de olhar para Oliveira do Hospital como um exemplar que, em pouco mais de vinte anos, foi palco de criação e desenvolvimento de instituições de Conhecimento como a Eptoliva, a ESTGOH e a BLC3 – sim, é por aqui, é por aqui o futuro!

Esta Visão é de tal modo séria, importante e decisiva, que nenhum de Nós tem o direito de não estar disponível, não contribuir, não ser solidário e honesto para com uma causa comum, que vai para além do que cada um de nós particularmente ambiciona ou deseja, no curto prazo que é o tempo da nossa passagem.

Se o Interior conseguir captar Conhecimento, acreditem que vai chegar dinheiro e não vai faltar estrada para cá chegar. E vai saber bem ficar.

Vitor Neves

(publicado no jornal Folha do Centro, 13 de Novembro 2018)

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publicado às 22:45

Sem Ajuste!

30.10.18

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Para ser claro, importa ser breve.

A linguagem que utilizamos é bem conhecida do visado. Sim, Ele sabe bem que a melhor defesa é o ataque.

Não é que Ele precise de defesa ou que mereça ser atacado. Mas exerce um cargo político e o exercício implica muitas vezes lidar com a incerteza dos resultados e da avaliação dos mesmos, por aqueles que Ele chama “o meu povo”.

Vamos então por aí. Primeiro o ataque que é para ser melhor a defesa.

Ele podia ter recusado falar com a jornalista da TVI. Recusava. Não se expunha.

Ele podia ter descarregado toda a responsabilidade na Ana Abrunhosa, a Presidente da ccdrc, e apresentava-se como mais uma vítima da desgraça, qual Presidente desgraçado.

Ele podia ter lido os sinais do momento e não condecorava a Senhora Professora no feriado de 7 de Outubro, como se a outra Ana  lhe tivesse filmado o estado do sitio em estado de sítio.

Poder podia, mas não era a mesma pessoa.

Poder podia, mas se fosse assim talvez não tivesse somado sempre mais votos na eleição seguinte, e de forma esmagadora.

Sim, já estamos a iniciar a defesa.

O que é melhor? 1- um Presidente taticista, cata-vento, sem coluna, escondido, não solidário e atleta do perfeito conveniente e do disponível quando-dá-jeito; 2- ou o Presidente autêntico, humano imperfeito, vertical, amigo-do-seu-amigo, voluntarioso, assumido, emocional e presente?

Eu não tenho qualquer tipo de dúvida nesta matéria: o meu 1 é o 2!

E o 2 é Ele, José Carlos Alexandrino, Presidente do Município de Oliveira do Hospital. 

É sempre preferível um Homem “sem ajuste-direto” do que um “direto-ajustado”.

 

Vitor Neves


ps: - para registo: por circunstâncias da vida, não falo com José Carlos Alexandrino há meses, mas conheço-o há anos. Muitos.

 

(publicado no jornal Folha do Centro, 18 de Outubro de 2018)

 

 

 

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publicado às 21:43

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Sabe onde é Gavinhos de Cima?

É um bairro, desenhado em formato de anexo, da cidade de Oliveira do Hospital.

Foi ali que fui criança.

Os anos foram esvaziando Gavinhos de Cima de habitantes.

Uns foram para muito longe, outros para longe, outros para perto: foram muitos os que foram. Ficaram muitas casas vazias, muitas ruas quase sempre desertas, muitos terrenos em pousio eterno da agricultura de subsistência.

Gavinhos de Cima foi perdendo juventude, energia, vitalidade, orgulho e capacidade de sonhar. É muito difícil as pessoas sonharem, quando a linha do fim, marcada pela idade, começa a anunciar que falta pouco tempo.  Até os Grandiosos Festejos, em Honra da Nossa Senhora da Graça foram cada vez ficando menos grandiosos.

A grande festa que se fazia em redor da Capela da Santa, onde se chegava atravessando ruas limpas, iluminadas, floridas e ao som da música da aparelhagem sonora; a grande festa do frango assado, do caldo verde, do tinto, da gasosa e da mini gelada; a grande festa dos conjuntos musicais, do “dancing” cheio que nem um ovo e dos arraiais; a grande festa da banda filarmónica, dos andores e da procissão, do leilão da quermesse, das provas de atletismo, da malha e da corrida de púcaros; a grande festa do calor de Agosto, dos foguetes das alvoradas e dos bidons de gelo, dos grandes almoços das famílias, com emigrantes e outros visitantes e o músico convidado; a grande festa de duas noites longas, onde podia acontecer tudo, até pancadaria, que graças à Senhora da Graça acabava sempre nas traseiras da Capela, no bar!

Por estes dias, sobrava festa, faltava gente. Este ano não houve festa.

O vazio deste Agosto, em redor da capela da Nossa Senhora da Graça, é a imagem cheia da desgraça do Interior: falta gente. Falta gente e falta gente nova, como se dizia nos tempos dos Grandiosos Festejos.

Sim, os tempos mudaram. Agora já ninguém ambiciona o prestígio e a bondade social de ser mordomo. Agora ninguém tem tempo, tanta é a gente que exibe a gosto o tempo que gasta a dizer que não tem tempo. E com cada vez menos pessoas e com cada vez mais pessoas no fim do tempo, não há tempo para nada, nem para festas.

- Uma desgraça, Senhora da Graça!

Assalta-me, neste instante em que escrevo, a memória da novena e do eco da voz da Menina Judite que, ajoelhada, proclamava:

- Nossa Senhora da Graça, Rogai por Nós.

E nós, os miúdos, cá atrás, entre risinhos e beliscões, respondíamos:

- Rogai por Nós.

 

Vitor Neves

(publicado no jornal Folha do Centro, 12 de Setembro de 2018; fotografia: A. Alexandre Neves)

 

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publicado às 15:05

Famosos do Fogo

16.05.18

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O Fogo.

A Fama.

Depois de ter ardido, o Interior tornou-se conhecido.

Desde o dia 15 de Outubro, Portugal acordou para o Portugal que se queimou.

A desgraça é a graça da audiência.

A desgraça é palco de graça da popularidade.

Já não há nada de novo para ver. Já não há nada de novo para dizer. Mas contínua o ir e vir.

Os daqui, do Interior, vão até Lisboa dizer que isto ardeu e que perante tanta desgraça é preciso dinheiro, dinheiro.

Os dali, de Lisboa, do poder, da oposição visitam a terra queimada e, confrontados pelas imagens e pelas histórias da desgraça, prometem apoio, apoio.

Tudo isto dá na TV. Também dá na Rádio. Também é contado nos jornais. Mas o Interior gosta mesmo é da TV.

O Interior queimado, deserto, esquecido, envelhecido é o cenário explorado até à exaustão, numa novela que já vai em registo de várias temporadas, em que diferentes protagonistas se tornaram figuras conhecidas do fogo – uns legitimados pelo que fazem, outros fazem tudo para parecer legitimados!

São os (nossos) famosos do fogo. São os filhos da fama do grande incêndio.

Talvez não seja bonito escrever assim, mas é o que se sente ao assistir ao desfile de vaidades de alguns desses protagonistas nas redes sociais – sublinhe-se, alguns - quando anunciam que hoje vou à TV, quando anunciam que hoje fui à TV, quando não conseguem controlar a exibição do ego de quem se vê na TV.      

Basta passar uns dias pelo meio da terra despida pelas chamas, para se perceber que há uma maioria silenciosa que está cansada!

Cansada de ver a nudez da sua terra na TV; Cansada de ver os amigos e os vizinhos a narrar a sua miséria na TV; Cansada de tanta popularidade daqueles que julgam ser um caso nacional ao ler o seu nome no jornal; Cansada de ver este Interior na TV, tantas vezes na TV!

A fama cansa. A fama do fogo queima.     

Vitor Neves

 

(publicado no jornal Folha do Centro, 10 de Maio de 2018)

           

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publicado às 22:30

A Tosquia

09.03.18

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Era uma vez um miúdo.

Num certo dia, que certos dias passados se repetia, chegavam os homens. Os homens traziam com eles os utensílios necessários. Os homens agarravam as ovelhas pelas patas e com as patas viradas para o céu, cortavam. Os utensílios ajudavam a arrancar a lã. Era o dia da tosquia.

No final do dia, as ovelhas ficavam em pele, despidas, nuas. A lã fazia montes. Gente grande explicava a utilidade, mas tudo aquilo era um quadro de crueldade.

O miúdo era eu. Nunca gostei do dia da tosquia.

Nos últimos tempos, tenho serpenteado frequentemente as estradas de Oliveira do Hospital, Nelas, Mangualde, Carregal do Sal, Vouzela, Oliveira de Frades, o IP3, a A25…tenho percorrido, mais uma vez e outra vez, o interior que ardeu, que se queimou, que se pintou de preto.

Os olhos contemplam a tosquia da paisagem.

Parece que se vê mais longe, parece que se vê mais para o outro lado, parece que há mais espaço, parece que há mais pedras, parece que a “a nossa casa” ficou sem cortinas – vê-se tudo!

As árvores queimadas começam a ser objeto de corte e o espaço começa a ficar vazio. As árvores queimadas, mas ainda de pé, parecem traços pretos. Tudo parece estranho. Falta o verde. E falta ramagem à paisagem.

O fogo fez a tosquia ao Interior.

O Interior ficou despido, nu. Tal como as ovelhas sem lã, depois da tosquia, o Interior não parece o mesmo, não é hoje o que era. Exibe um ar de desamparado, assustado, perdido. Falta-lhe a densidade da paisagem, a lã que o definia, que o confortava.

O Interior está em pele e osso. Quer faça chuva, quer faça sol, em pele e osso qualquer dia é difícil de suportar. Todos os dias.

Era uma vez um graúdo.

Num certo dia, entre as curvas da estrada que cortava ao meio a paisagem das “pedras queimadas”, na rádio, o Palma cantava “a gente vai continuar”… e num instante tudo pareceu mais verde do que no dia anterior!

O graúdo sou eu. Sempre gostei do dia a seguir ao da tosquia.

 

Vitor Neves

 

(publicado no jornal Folha do Centro, 8 de Março de 2018)

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publicado às 23:33

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Isolados. Velhos. Doentes. Aflitos, no meio da noite.

O telefone? Ai o telefone! Nunca mais tocou, desde que o fogo o queimou.

O Homem chamou, ninguém respondeu.

O Homem andou, andou, caiu, seguiu e demorou.

O Homem gritou, ninguém ouviu.

O Homem voltou. Não regressou sozinho, mas ficou só.

A Mulher não esperou. Partiu.

Foi uma Rádio local, sim, uma Rádio local, que deu a notícia.

Foi um Jornal, mais regional que nacional, que ampliou o sucedido.

Num instante, o Interior virou outra vez clamor. O Troviscal de “lá longe” ficou perto de Lisboa e de Lisboa, os Senhores, disseram e fizeram o costume: comunicados, inquéritos! Desta vez, apesar do outra vez desta vez, desta vez isto não fica assim. Mas fica.

Quando o telefone toca, chega a fatura. Quando o telefone não toca, chega a fatura. O técnico para por o telefone a tocar, meses passados, nunca chegou.

Isto queima. Queima de raiva. Mas é o que é, que não devia ser, mas é.

Sejamos pragmáticos e sérios. Este Interior profundo, isolado, perdido está morto. Acabou.

Temos que tirar de lá as pessoas que ainda lá (sobre)vivem: é tudo o que há a fazer.

O Interior, que agora está na agenda (ou na moda?), é um problema demasiado grande para ser enfrentado por inteiro. Quando o problema é grande, é avisado procurar a solução após se ter dividido o problema em partes.

Vamos ao exercício. Divida-se o Interior em três: o Interior que tem pessoas; o Interior que está a perder pessoas; o Interior que quase já não tem pessoas.

O Interior que tem pessoas é um “falso interior”, aliás está a menos de uma hora do mar. É o Interior bom e que está bem.

O Interior que quase não tem pessoas, precisa de ajuda para que se apague o quase. Resolvido o problema, isto é, não havendo lá pessoas, trate-se da natureza.

O Interior que ainda tem pessoas, mas que está a perder pessoas, que perde muitas pessoas há mais de vinte anos, é que é o grande e determinante desafio.

Não há nada pior do que olhar para este “Interior Intermédio” e ver crescer o deserto. E no deserto o telefone não toca!

 

Vitor Neves

 

(publicado no jornal Folha do Centro, 27 de Fevereiro de 2018)

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publicado às 22:12

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O interior das guerrinhas do Interior é de um vazio de sentido sem medida.

Ainda há pouco ardemos, mas parece que já esquecemos.

Navega-se pelas rádios, jornais, televisões e redes sociais e…custa a acreditar, a aceitar, a compreender.

O Interior não é isto, mas, infelizmente, também é isto: disputas, invejas, insultos.

Somos cada vez menos. E como somos cada vez menos cada vez somos menos…dos bons! E mesmo esses, os bons, os melhores, deixam que a “Interiorite” se lhes agarre e não se seguram na queda para comportamentos primários, impensados e precipitados.

Há tanto para recuperar, há tanto para fazer, é tão necessário Renascer, que há espaço para todos no tudo que importa (re)conquistar.

Parece fácil, parece óbvio, mas não é.

O Ser Humano perde num instante a racionalidade, perde-se, estupidifica. Mas agora não pode ser, não pode ser! Leram bem? Não pode ser!

Nem que seja só por uma vez, ou só desta vez, precisamos de estar todos do mesmo lado, juntos, unidos, em força, nesta luta contra o esquecimento, contra o desaparecimento.

Não é o tempo, não é o momento para demissões, nem separações.

Este é o tempo de festejar o que Renasce, de ajudar quem precisa de recuperar, de ir até ao fim do mundo para dizer ao mundo que estamos cá, somos de cá e cá vamos continuar a viver.

Vamos lá deixar de disputas sobre quem-é-quem, invejar quem aparece por aparecer, insultar gratuita e violentamente.

Cruzamo-nos todos os dias uns com os outros, frequentamos muitas vezes os mesmos sítios, temos amigos comuns, temos familiares amigos uns dos outros, temos filhos que jogam futebol juntos e, todos, todos sentimos o inferno das chamas empurradas por um vento quente e louco.

Saibamos, então, não ser uma definição de vergonha…e de (mais) tristeza.

- Sabem o que aborrece, entristece e enfurece? É que muitos dos desavindos são gente boa, capaz, com provas dadas e que é precisa!

Apetece bater-lhes! Muito. Pelo bem do Interior.

Vitor Neves

(publicado no jornal Folha do Centro, 30 de Janeiro de 2018)

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publicado às 21:26


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