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35 horas

17.01.16

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O regresso às 35 horas na Função Pública é um manifesto de que o irrealismo, o facilitismo e o corporativismo permanecem por aí. (hoje estava planeado escrever sobre "as 35h", mas ao ler esta frase, logo percebemos que alguém tinha tido a mesma ideia...o jornalista Manuel Carvalho, Público)

Foi você que pediu as 35 horas? 

"Portugal, terceira semana de 2016. A Unidade Técnica de Apoio Orçamental garante que a estratégia anunciada pelo Governo vai fazer crescer a dívida em 11 mil milhões de euros até 2019; o défice subirá para acima dos 4% à custa do Banif e Mário Centeno deixa subentender que a Comissão Europeia vai impedir a saída do país do procedimento por défices excessivos; o consumo privado cresce e só o baixíssimo preço do petróleo nos salva de um persistente desequilíbrio da balança externa; fontes da Comissão Europeia e o próprio Banco Central Europeu criticam o Governo por não ter implicado os titulares de obrigações sénior do Banif a pagar o resgate do banco, poupando aos contribuintes mil milhões de euros; um pouco por todo o lado (incluindo cá), vão-se revendo em baixa as perspectivas de crescimento e há até quem avise que 2016 pode ser um ano de recessão e deflação global. Perante este cenário, fica-se com a ideia de que toda a Gália está cercada pela crise. Toda? Não, há uma pequena aldeia gaulesa que resiste. A da Função Pública.

Pedro Passos Coelho era muitas vezes (e quase sempre justamente) acusado de promover uma guerra desnecessária e perigosa entre os trabalhadores do sector privado e os funcionários públicos. António Costa há-de ser muitas vezes (e quase sempre justamente) acusado de a manter ou até de a acirrar. Porque se nos anos de chumbo do ajustamento se deixou instalar a ideia inaceitável de que os funcionários públicos eram uma casta de privilegiados que se alimentava da seiva da nação que trabalha e produz, o regresso de algumas benesses decidido pelo novo Governo faz regressar a percepção de que vivem protegidos por um sistema de partidos que os salva da crise como pagamento de supostos favores eleitorais. Não, não se trata das devoluções dos salários cortados, nem do fim da lista da mobilidade, nem do eventual regresso dos privilégios da ADSE. O que coloca os funcionários públicos sob a desconfiança do país é o regresso das inenarráveis 35 horas de trabalho semanal.

Diz António Costa, e os registos confirmam-no, que o que está em causa é o cumprimento de uma promessa eleitoral. Acrescenta o diploma aprovado esta semana no Parlamento que se pretende apenas garantir direitos básicos da civilização, como o da estabilidade familiar. Nota a cada passo o primeiro-ministro ou o seu ministro das Finanças que tudo isto se fará sem que se gaste mais um cêntimo do Orçamento. Tudo bem, mas não é isso que está em causa e, principalmente, não é isso que interessa. O que interessa é saber as razões que levam o Governo a avançar já com esta medida, precisamente no momento em que os sinais de que os perigos de uma recessão, do agravamento do défice e do crescimento da dívida alastram. O que interessa é saber se faz sentido que haja uma classe profissional favorecida com o regresso de um privilégio injusto e absurdo quando se sabe que, para sobreviverem, muitas empresas exigem aos seus trabalhadores esforços e horas de trabalho que estão para lá da lei e da decência.

A CGTP, António Costa, Catarina Martins ou Jerónimo de Sousa hão-de ver na pressa do Governo um definitivo manifesto do sentir da esquerda que está no poder. Não notam que essa é a esquerda fossilizada das corporações. Não percebem que essa não é a esquerda que promove a igualdade ou que protege os mais fracos. Não sentem que essa não é a esquerda empenhada na justiça social. Por que razão há-de uma funcionária de uma repartição trabalhar menos que a balconista de uma empresa privada? Por que razão há-de um contínuo de uma escola trabalhar menos horas do que um operário têxtil? Por que carga de água há-de um jurista de um ministério passar menos horas com processos do que um jurista de um escritório privado? Caso não tenha o Governo notado, todos têm famílias. Mas nem todos têm as mesmas condições e, principalmente, a mesma protecção política. Fiscalizar e punir os que abusam da precariedade seria, sim, uma ideia de esquerda; colocar toda uma classe profissional acima das outras é claramente um privilégio que pouco tem a ver com os valores que o Governo e os seus parceiros reclamam.

E é por ter essa certeza em mente que António Costa tanto se esforça por garantir que o recuo do horário de trabalho para as 35 horas não vai ter impacte no Orçamento. Era o que faltava separar o mundo entre os que trabalham mais horas e os que trabalham menos e pôr todos a pagar por essa benesse. Mas como não há almoços grátis nem trabalho sem salário, poucos acreditam que o Governo seja capaz de organizar os serviços ou convencer todos os funcionários públicos a abdicar das remunerações a que têm direito ou a trabalhar a desoras. É por isso que, na proposta que entregou na Assembleia, o ministro das Finanças não tratou de esclarecer como pode haver redução de horários sem gastos suplementares nas horas extra. Com o tempo, sempre haverá maneira e oportunidade de esconder esses pagamentos numa qualquer alínea da conta geral do Estado.

Depois de prometer na campanha, António Costa faz bem em cumprir no Governo. Mas há um tempo político para tudo. Há prioridades a estabelecer. Há compassos de espera a fazer quando não se têm em mãos todos os dados do jogo para decidir. Há o dever de prudência quando se tomam decisões sensíveis. Sendo uma medida que faz regressar o fosso e as desconfianças entre servidores do Estado e trabalhadores do privado, que tem impacte num défice que está de volta ao patamar dos 4% e que acentua a ideia de que este Governo é o governo do Estado para o Estado, António Costa deveria ter esperado por uma melhor oportunidade. Não se sabe se não o fez por convicção ou por contingência. Sabe-se, isso sim, que o braço armado de um dos partidos que o apoiam no Parlamento, a CGTP, tratou de ir logo para a rua ameaçar com greve caso essa ideia lhe passasse pela cabeça.

O regresso às 35 horas na Função Pública (não se discute que algumas classes profissionais devem ser contemplados com este horário) é por isso um manifesto de que o irrealismo, o facilitismo e o corporativismo permanecem por aí – anda certamente na campanha eleitoral mais fútil e estúpida que há memória. Se há alguma certeza que podemos tirar destas semanas, é que o sentido de urgência a que nos habituámos se perdeu. Perdeu-se no discurso delico-doce da educação, perdeu-se na dádiva de um horário mais curto a uma parte dos portugueses, perdeu-se na sensação de que a fragilidade política do Governo permite o regresso ao paraíso perdido dos sindicatos, perdeu-se na relativização de que a dívida e o défice são números abstractos que se podem remeter para contas futuras. Não é caso para dizer que está tudo perdido. Mas o cepticismo que alastrou esta semana pelo espaço público é sinal de que começam aqui e ali a irromper sentimentos de frustração e de medo. Veremos se o Orçamento os consegue dissipar." 

 

Manuel Carvalho, Pùblico, 17 de Janeiro de 2016. 

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publicado às 16:17

Não vamos ler.

922968.jpgÉ uma escolha.

Passos Coelho não precisava e não precisa de uma biografia.

Um dia, talvez. Hoje, agora, não.

Passos Coelho está primeiro-ministro. E depois das eleições até pode continuar a estar.

Nada acabou. Nada terminou. E até pode continuar.

Aconteça o que acontecer esta será sempre uma biografia incompleta.

E uma biografia incompleta não faz sentido. Ponto.

Não vamos ler.

 

ps: leitura recomendada (em link) - "Uma Biografia Doente" de Rui Cardoso Martins, Jornal Público 

http://www.publico.pt/politica/noticia/uma-biografia-doente-1696417

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publicado às 23:33

Ajudas a Portugal e Grécia foram resgates aos bancos alemães.

É incorrecta a narrativa que os alemães contaram a si próprios de que a crise do euro teve a ver com o Sul a querer levar o dinheiro deles, diz ex-conselheiro de Durão Barroso.

 


Philippe Legrain, foi conselheiro económico independente de Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia, entre Fevereiro de 2011 e Fevereiro deste ano, o que lhe permitiu acompanhar por dentro o essencial da gestão da crise do euro. A sua opinião, muito crítica, do que foi feito pelos líderes do euro, está expressa no livro que acabou de publicar “European Spring: Why our Economies and Politics are in a mess”.

A tese do seu livro é que a gestão da crise da dívida, ou crise do euro, foi totalmente inepta, errada e irresponsável, e que todas as consequências económicas e sociais poderiam ter sido evitadas. Porque é que as coisas se passaram assim? O que é que aconteceu? Uma grande parte da explicação é que o sector bancário dominou os governos de todos os países e as instituições da zona euro. Foi por isso que, quando a crise financeira rebentou, foram todos a correr salvar os bancos, com consequências muito severas para as finanças públicas e sem resolver os problemas do sector bancário. O problema tornou-se europeu quando surgiram os problemas da dívida pública da Grécia. O que teria sido sensato fazer na altura – e que era dito em privado por muita gente no FMI e que este acabou por dizer publicamente no ano passado – era uma reestruturação da dívida grega. Como o Tratado da União Europeia (UE) tem uma regra de “no bailout” [proibição de assunção da dívida dos países do euro pelos parceiros] – que é a base sobre a qual o euro foi criado e que deveria ter sido respeitada – o problema da Grécia deveria ter sido resolvido pelo FMI, que teria colocado o país em incumprimento, (default), reestruturado a dívida e emprestado dinheiro para poder entrar nos carris. É o que se faz com qualquer país em qualquer sítio. Mas não foi o que foi feito, em parte em resultado de arrogância – e um discurso do tipo ‘somos a Europa, somos diferentes, não queremos o FMI a interferir nos nossos assuntos’ – mas sobretudo por causa do poder político dos bancos franceses e alemães. É preciso lembrar que na altura havia três franceses na liderança do Banco Central Europeu (BCE) – Jean-Claude Trichet – do FMI – Dominique Strauss-Kahn – e de França – Nicolas Sarkozy. Estes três franceses quiseram limitar as perdas dos bancos franceses. E Angela Merkel, que estava inicialmente muito relutante em quebrar a regra do “no bailout”, acabou por se deixar convencer por causa do lobby dos bancos alemães e da persuasão dos três franceses. Foi isto que provocou a crise do euro.

Como assim? Porque a decisão de emprestar dinheiro a uma Grécia insolvente transformou de repente os maus empréstimos privados dos bancos em obrigações entre Governos. Ou seja, o que começou por ser uma crise bancária que deveria ter unido a Europa nos esforços para limitar os bancos, acabou por se transformar numa crise da dívida que dividiu a Europa entre países credores e países devedores. E em que as instituições europeias funcionaram como instrumentos para os credores imporem a sua vontade aos devedores. Podemos vê-lo claramente em Portugal: a troika (de credores da zona euro e FMI) que desempenhou um papel quase colonial, imperial, e sem qualquer controlo democrático, não agiu no interesse europeu mas, de facto, no interesse dos credores de Portugal. E pior que tudo, impondo as políticas erradas. Já é mau demais ter-se um patrão imperial porque não tem base democrática, mas é pior ainda quando este patrão lhe impõe o caminho errado. Isso tornou-se claro quando em vez de enfrentarem os problemas do sector bancário, a Europa entrou numa corrida à austeridade colectiva que provocou recessões desnecessariamente longas e tão severas que agravaram a situação das finanças públicas. Foi claramente o que aconteceu em Portugal. As pessoas elogiam muito o sucesso do programa português, mas basta olhar para as previsões iniciais para a dívida pública e ver a situação da dívida agora para se perceber que não é, de modo algum, um programa bem sucedido. Portugal está mais endividado que antes por causa do programa, e a dívida privada não caiu. Portugal está mesmo em pior estado do que estava no início do programa.

Quando diz que os Governos e instituições estavam dominados pelos bancos quer dizer o quê? Quero dizer que os Governos puseram os interesses dos bancos à frente dos interesses dos cidadãos. Por várias razões. Em alguns casos, porque os Governos identificam os bancos como campeões nacionais bons para os países. Em outros casos tem a ver com ligações financeiras. Muitos políticos seniores ou trabalharam para bancos antes, ou esperam trabalhar para bancos depois. Há uma relação quase corrupta entre bancos e políticos. No meu livro defendo que quando uma pessoa tem a tutela de uma instituição, não pode ser autorizada a trabalhar para ela depois.

Também diz no seu livro que quando foi conselheiro de Durão Barroso, o avisou claramente logo no início sobre o que deveria ser feito, ou seja, limpar os balanços dos bancos e reestruturar a dívida grega. O que é que aconteceu? Ele não percebeu o que estava em causa, ou percebeu mas não quis enfrentar a Alemanha e a França? Sublinho que isto não tem nada de pessoal. O presidente Barroso teve a abertura de espírito suficiente para perceber que os altos funcionários da Comissão estavam a propôr receitas erradas. Não conseguiram prever a crise e revelaram-se incapazes de a resolver. Ele viu-me na televisão, leu o meu livro anterior (*) e pediu-me para trabalhar para ele como conselheiro para lhe dar uma perspectiva alternativa. O que foi corajoso, e a mim deu-me uma oportunidade de tentar fazer a diferença. Infelizmente, apesar de termos tido muitas e boas conversas em privado, os meus conselhos não foram seguidos.

Porquê? Será que a Comissão não percebeu? A Comissão tem a reputação de não ter nem o conhecimento nem a experiência para lidar com uma crise destas. Foi esse o problema? Foram várias coisas. Claramente a Comissão e os seus altos funcionários não tinham a menor experiência para lidar com uma crise. Era uma anedota! O FMI é sempre encarado como a instituição mais detestada [da troika], mas quando foi juntamente com a Comissão à Irlanda, as pessoas do FMI foram mais apreciadas porque sabiam do que estavam a falar, enquanto as da Comissão não tinham a menor ideia. Por isso, uma das razões foi inexperiência completa e, pior, inexperiência agravada com arrogância. Em vez de dizerem “não sei como é que isto funciona, vou perguntar ao FMI ou ver o que aconteceu com as anteriores crises na Ásia ou na América Latina”, os funcionários europeus agiram como se pensassem “mesmo que não saiba nada, vou na mesma fingir que sei melhor”. Ou seja, foram incapazes e arrogantes. A segunda razão é institucional: não havia mecanismos para lidar com a crise e, por isso, a gestão processou-se necessariamente sobretudo através dos Governos. E o maior credor, a Alemanha, assumiu um ponto de vista particular. Claro que isto não absolve a Comissão, porque antes de mais, muitos responsáveis da Comissão, como Olli Rehn [responsável pelos assuntos económicos e financeiros], partilham a visão alemã. Depois, porque o papel da Comissão é representar o interesse europeu, e o interesse europeu deveria ter sido tentar gerar um consenso de tipo diferente, ou pelo menos suscitar algum tipo de debate. Ou seja, a Comissão poderia ter desempenhado um papel muito mais construtivo enquanto alternativa à linha única alemã. E, por fim, é que, embora seja politicamente fraca, a Comissão tem um grande poder institucional. Todas as burocracias gostam de ganhar poder. E neste caso, a Comissão recebeu poderes centralizados reforçados não apenas para esta crise, mas potencialmente para sempre, que lhe dão a possibilidade de obrigar os países a fazer coisas que não conseguiram impor antes. É por isso que parte da resposta é também uma tomada de poder.

 

(Público, Isabel Arriaga e Cunha)

 

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publicado às 23:19

A ditadura do mesmo

 

O texto (aqui em excertos) que se publica é assinado no Público ( http://www.publico.pt/mundo/noticia/a-ditadura-do-mesmo-1634028 ), em 30/04, por Rui Tavares (Historiador e eurodeputado, cabeça de lista do partido Livre às eleições europeias).

 «Escrevo minutos depois de ter visto o primeiro debate entre os candidatos a presidente da Comissão Europeia. Um debate histórico. Falou-se de tudo o que é essencial para o nosso futuro: desemprego, eurobonds, troika, juventude, energia, Ucrânia, imigração, envelhecimento, pensões e salários. Pela primeira vez desde que o mundo é mundo, quatro candidatos ao executivo de uma União de países explicaram como pretendem governar se forem eleitos. E, no entanto, escrevo estas linhas com raiva.

Porquê? Porque em Portugal ninguém quis organizar este debate....

...as instituições e órgãos de comunicação social que não quiseram dar atenção a este debate justificaram-se com a falta de interesse dos portugueses por temas europeus. Mas querem saber a melhor? Durante o debate de ontem foi batido um recorde de dez mil tweets por minuto comentando as propostas dos candidatos. Sabem de onde vinha a grande maioria? Dos países do Sul da Europa....

...Portugal, hoje, é a ditadura do mesmo: os mesmos debates, os mesmos círculos, as mesmas opiniões e os mesmos partidos, fazendo as coisas sempre da mesma maneira, e coreografando as mesmas controvérsias com as mesmas palavras e o mesmo vazio de significado....

O mesmo se passa hoje. Há regimes que são oligarquias, burocracias, tecnocracias ou bancocracias. O nosso regime é a mesmocracia....»

 

O texto (aqui em excertos) que se publica é assinado no Dinheiro Vivo (http://www.dinheirovivo.pt/Buzz/Artigo/CIECO345774.html?page=0 ), em 02/05, por Pedro Bidarra (Publicitário, psicossociólogo e autor).

 «Gostei do artigo do Rui Tavares (RT) no Público...

...Apenas corrigiria a referência ao hoje. Dá-me ideia que Portugal sempre foi assim: mais do mesmo. Portugal é um país onde a convenção reina e onde a inovação, o risco e a criatividade estão, há muito, na clandestinidade.

"Imbecilidade é fazer as mesmas coisas repetidamente e esperar resultados diferentes" é uma citação famosa atribuída a Einstein – que na verdade disse insanidade em vez de imbecilidade, mas eu dei-me a liberdade de traduzir assim.

Usando esta definição operativa de imbecilidade, eu direi que Portugal é um país com uma quantidade anormal de imbecis. Não sei se tem mais ou menos imbecis que a média, mas desconfio que, entre as suas elites, estará acima da média europeia. Parece-me mesmo que, para se chegar à elite, é precisa uma razoável dose de imbecilidade, ou seja, de pensamento convencional, de saber fazer o que sempre se fez, de falar como sempre se falou, de pensar o que sempre se pensou.

Quando falo em elites não me refiro apenas àquelas em que é fácil malhar nos jornais e nas redes sociais: os empresários e os "capitalistas". Claro que nessas elites há imbecis com fartura, embora no mundo empresarial haja uma selecção natural que impede a permanência no topo das empresas de grandessíssimos imbecis. Mas os imbecis, os que fazem o mesmo e esperam resultados diferentes, estão em todo o lado.

Estão nas direcções dos jornais e televisões, por exemplo. Oh se estão. Basta ver as dezenas de programas em simultâneo com um moderador e três gajos a falar de futebol; todos a fazer o mesmo à espera de resultados diferentes. Imbecilidade, lá está.

A cultura, por exemplo, está cheia de imbecis muito eruditos: gente que sabe tudo o que se fez e por isso insiste em fazer, premiar e aplaudir o que se faz como sempre se fez. Para se ser escritor ou artista não é preciso fazer nada de novo. Basta ter o pensamento do costume, a opinião do costume, a cor do costume, os amigos do costume e fazer qualquer coisa que seja parecida com a coisa do costume.

E estão no povo que, desde há 40 anos, alternadamente vota PS e PSD e espera resultados diferentes.

...O RT está frustrado...

...Mas não estará ele e o Livre a fazer o mesmo de sempre? Não é o Livre apenas mais do mesmo? Não estará o RT com raiva de um sistema que faz sempre o mesmo, porque esperava o mesmo tratamento que afinal não tem?»

 

Será que a democracia, hoje, é a ditadura do mesmo do costume?

 

 

 

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publicado às 10:19

"A ditadura do imediato e do falsamente evidente"

 

Foi com a ajuda de Henrique Monteiro, na sua crónica de hoje do semanário Expresso, que o acesso ás "Palavras Sábias" de Francisco Assis no Público, motivaram mais este especial do ca$h resto z€ro, que já vai na sua 24ª edição, sobre os regimes: a ditadura e/ou a democracia.

Todos os dias, todos os dias mesmo, há sempre alguém que se mostra preocupado com a democracia (ou com o regresso da necessidade da ditadura!!!) nas páginas dos jornais, nas rádios, nas TVs, nos blogues...e ás vezes, por sortilégio mas também pela qualidade, concorde-se ou não, o ca§h vai guardando (e interrogando) aqui "os contributos".

O Socialista Assis, homem que pensa bem e escreve da mesma maneira, reconciliou o jornalista Monteiro com o mundo, ao escrever:

 

«A cura para as novas democracias doentes, não reside essencialmente nos chavões mais ouvidos - mais participação, transparência e proximidade - mas na rarefação de políticos suficientemente corajosos para assumirem, com devida ponderação, algum distanciamento crítico face à ditadura do imediato e do falsamente evidente.

Não se afigura possível levar a cabo uma condigna ação política tendo por referência os arquétipos mentais prevalecentes na lógica comunicacional das redes sociais."

 

Assis faz ainda notar que, tal como em 1935 disse o Checo Husserl, o perigo da Europa é ser vencida pelo cansaço de um espírito crítico culto e exigente.

 

Num tempo em que um dos indicadores de medida da moda da classe política são os likes nos perfis, é possível que a economia de um país, como Portugal,  passe de uma espiral recessiva a uma recuperação fulgurante, num click.

No entretanto, o país, Portugal, passou os últimos dias em mais uma leva de idas ao circo dos casos:

- a discutir a co-adopção, sem que a grande maiora saiba sequer em que consiste!?

(quem paga o referendo desejado?)

- a discutir as praxes, sem que a grande maioria saiba sequer o que é!?

(quem paga o "dossier da praia do Meco"?) 

- a discutir Miró, sem que a grande maioria saiba sequer quem é?

(quem paga a propriedade, manutenção e exposição das pinturas do catalão adorado no BPN de Oliveira e Costa?) 

  

Ricardo Costa enganou-se, hoje, no Expresso, ao escrever que esta é "a cultura de um país sem juízo e sem dinheiro". Não, este é um país que teima em se governar sem dinheiro e...SEM JUÍZO.

 

Temos que acabar com a ditadura do imediato. Será tal possível em democracia?

 

 

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publicado às 18:34

News em 2041

15.11.13

Na semana em que o Expresso anunciou um novo diário digital e a contratação de um dos melhores jornalistas nacionais, Pedro Santos Guerreiro, para o dirigir;

Na semana em que o jornal ABola intensifica a promoção da sua edição digital a 1 euro por semana;

Na semana em que Público anunciou que todos os conteúdos digitais vão passar a ter acesso pago por todos os leitores, após um determinado número de artigos lidos....

...sim, está em curso uma revolução radical na forma em como se consome informação....que tende a ser mais íntima e individualizada... 

...a propósito, aqui se partilha o texto publicado e assinado por Simone Duarte, também esta semana, no diário generalista da Sonae, que devia ter no topo da página a seguinte mensagem:

leitura obrigatória.  

 

O futurista australiano Ross Dawson tornou-se impopular entre os jornalistas em todo o mundo quando criou, em 2010, um mapa que previa a data de extinção dos jornais impressos, país a país. Pelos cálculos de Dawson, 2041 seria o ano de extinção dos jornais em papel em todo o planeta. Será? O PÚBLICO lançou o desafio a seis profissionais que estão no olho do furacão: como leremos notícias em 2041?

 

“Algoritmos inteligentes, Big Data e comunicação social unir-se-ão para criar experiências únicas e personalizadas para todos os consumidores” – acredita Alan D. Mutter, que está em Silicon Valley, na Califórnia, a Meca da tecnologia, desde 1996 onde já foi CEO de três start-ups. “Não faço a menor ideia de como é que as pessoas receberão as notícias em 2041 porque, até lá, a tecnologia evoluirá certamente muitíssimo. Há sete anos, não havia iPhones. Há três anos, não havia iPads. Há um ano, não havia o Google Glass [óculos de realidade aumentada que se ligam à internet e permitem sobrepor imagens digitais àquilo que o utilizador estiver a ver]. Há algumas semanas, não existia o relógio da Samsung [relógio que se liga à internet e tem algumas funcionalidades de um smartphone], mas o que eu sei é o seguinte: se o leitor for um vegetariano canhoto que ganha 33 mil euros por ano, adora música de acordeão polaca e tenciona fazer uma viagem a Moscovo receberá notícias, informação comercial e de lazer de acordo com as suas necessidades específicas, incluindo informação que ‘aterra’ no seu dispositivo inteligente quando passa por determinada loja ou circula por uma determinada estrada para ir trabalhar. A comunicação social será íntima, individualizada e transacional de formas que hoje não conseguimos imaginar” – prevê em declarações ao PÚBLICO o antigo jornalista que trocou a redacção do San Francisco Chronicle no fim dos anos 1980 para criar uma start-up. Hoje, o seu blogue Reflexions of a Newsosaur (Reflexões de um dinossauro das notícias) é leitura obrigatória para quem quer manter-se informado sobre tecnologia e media.

 

O veterano Alan D. Mutter não acredita que 2041 seja uma data mágica para acabar com o papel impresso. Lembra que alguns jornais nos Estados Unidos e em outras partes do mundo já deixaram de ter versão em papel. Outros imprimem apenas em alguns dias da semana. Com o passar do tempo, os directores e administradores de mais publicações – acredita – optarão por deixar de imprimir ou por reduzir a sua dependência do papel. “Se a versão impressa continuar a diminuir nos próximos sete anos como diminuiu nos últimos sete anos (as receitas da publicidade de jornais nos Estados Unidos caíram de 49 mil milhões de dólares para 22 mil milhões em 2012), muitas serão as rotativas que se calarão muito antes de 2041. Por outro lado, o papel impresso será apreciado pelos consumidores para algumas finalidades e eu espero ardentemente poder ainda desfrutar do cheiro da tinta no papel em 2041, embora essa possa não ser a forma mais comum com que me chegam as notícias do dia. Agora que penso nisso, eu já recebo quase todas as minhas notícias em pixéis.”

 

O canadiano Brian Wong chegou a São Francisco muito depois de Alan D. Mutter. Tinha 18 anos quando se licenciou na Universidade em Vancôver. Aos 20, tornou-se o empreendedor mais jovem a receber financiamento de capital de risco no mundo. Hoje, tem 22. É co-fundador e CEO da Kiip, a maior rede móvel que dá prémios para incentivar os utilizadores a atingir objectivos em aplicações e jogos (por exemplo um jogador pode ter 5 dólares de desconto na Amazon depois de completar um nível num determinado jogo). Está presente em mais de 400 aplicações em 30 milhões de aparelhos móveis. A firma foi nomeada pela revista Fast Company uma das 50 empresas mais inovadoras em 2013. Angariou até agora 15,4 milhões de dólares de financiamento. Wong aposta que em 2041 vamos assistirà “tinderização” dos conteúdos.

 

“Penso que a muito recente e interessante aplicação chamada Tinder [uma aplicação lançada há pouco mais de um mês que aproxima pessoas que não se conhecem mas que moram perto umas das outras e podem ter ou não os mesmos interesses] não é apenas mais uma aplicação – escreve em declarações ao PÚBLICO por email. “Trata-se de um marco na história humana no sentido em que os nossos conteúdos e interacção vão ser, no futuro, muito mais binários, muito mais dimensionados em termos de bites. A nossa interacção móvel e instantânea requer microbits de processamento cerebral e o binário é a melhor forma de permitir uminput maciço para as mais diversas personalizações.”

 

“Houve tantas esperanças frustradas em relação à personalização que as pessoas já quase se esqueceram dela” – diz ao PÚBLICO Gene Liebel, o norte-americano que liderou o trabalho de redesenho desites noticiosos como CNN e Reuters e dirige a Work & Co., no Brooklyn, em Nova Iorque, uma das jovens empresas mais bem-sucedidas no desenvolvimento de produtos digitais. “Na verdade, trata-se de um problema técnico de tal complexidade que apenas nos últimos anos se começou a resolvê-lo. As funções de personalização de que dispomos hoje representam talvez 1% do que é possível. Em 2041, talvez os dispositivos sejam capazes de compreender e processar toda a nossa actividade – não só o que consumimos digitalmente, mas acontecimentos da nossa vida, porventura até as nossas conversas – e calcular o tipo de informação que nos interessa com um nível de fiabilidade espantoso.” Assim, garante Liebel ao PÚBLICO, “será possível ter uma tecnologia que possa verificar factualmente o trabalho de um jornalista – ou o discurso de um presidente – em tempo real”.

 

Liebel acredita que talvez 90% das formas como as pessoas consumirão notícias em 2041 serão inventadas depois de 2013, mas há algo que não mudará: “A tecnologia muda, mas nós temos tendência para querer as mesmas coisas. E, no que diz respeito ao consumo de notícias, uma coisa que tendemos a querer – e que a Internet tende a dar-nos – é mais controlo. Em 2041, Liebel gostaria de ver a chamada “economia da reputação” evoluir para um estádio em que os leitores tenham uma indicação imediata das novas fontes de informação que são fidedignas: “Gostaria de ter acesso a especialistas em todas as matérias – incluindo os que sejam completamente independentes – que tenham conquistado, com o tempo, a confiança da comunidade, quer pertençam a uma organização noticiosa estabelecida quer não.”

 

Sobre o papel dos editores, Gene Liebel acha que, em 2041, não terão mais o poder de formular a dieta de notícias diárias. “Embora isto possa parecer negativo, um dos objectivos dos editores é conseguir captar a minha atenção todos os dias, quer haja uma história importante para contar quer não. Isso é uma perda de controlo da minha parte, como leitor, algo que a Internet tende a eliminar com o tempo.”

Já Michael Bove Jr., do prestigiado Laboratório de Media do MIT, Instituto de Tecnologia de Massachusetts, não vai tão longe. Acha que a curadoria e a edição serão feitas em parte por profissionais, em parte pelas redes sociais e parte será automatizada. “Tendo a pensar que as notícias vão surgir de três fontes: jornalistas profissionais, jornalistas-cidadãos e o que poderemos chamar ‘jornalistas-robôs’ (sensores que recolhem informação e a transformam em alguma coisa que interessa aos seres humanos)” – afirma ao PÚBLICO o director do Consumer eletronics Lab e co-director do Center for Future Storytelling do Media Lab.

 

“Neste momento, estamos a viver uma revolução radical na forma como se consomem notícias” – diz ao PÚBLICO a jornalista Amy O’Leary do The New York Times, que esteve recentemente a participar da conferência Regresso ao Jornalismo, na Escola Superior de Comunicação Social, em Lisboa, e faz parte do recém-criado grupo de inovação formado por seis profissionais do jornal norte-americano. “Há dez anos, os leitores começaram a fazer uma transição do papel para o online. Nos últimos dois, o consumo de notícias em telemóveis e tablets aumentou a um ritmo absolutamente extraordinário; muito em breve, haverá mais pessoas a ler notícias em telefones inteligentes do que em computadores. Estas alterações de comportamento estão a acontecer mais depressa do que nunca e não se sabe onde nos podem levar. É por isso que é difícil imaginar exactamente como é que as pessoas vão consumir notícias em 2041. Alguns futuristas pensam que computadores ‘vestíveis’, como o Google Glass ou os ‘relógios inteligentes’, irão tornar-se tão comuns como hoje são os telefones. Outros imaginaram visões mais radicais: que a biotecnologia possa, um dia destes, ser integrada com o corpo humano para fornecer informação. Felizmente, o jornalismo sempre foi bom em encontrar novas histórias, novas pessoas, novos heróis e vilões. Em 2041, acho que isso continuará a ser o cerne do nosso trabalho. Temos é de ser muito, mas muito melhores nesse domínio.”

O português João Medeiros, editor de ciência da revista Wired, concorda. São os próprios jornalistas confrontados com tantos desafios mas também com novas oportunidades que precisam de se reinventar, mais do que a plataforma ou o produto em si: “Os jornalistas têm de ser capazes de experimentar e inovar no modo como contam as histórias e precisam cultivar a diligência, a componente essencial para procurar as histórias que precisam de ser contadas no nosso tempo. Esta é a essência do jornalismo.”

 

Amy O’Leary remata: “Não consigo perspectivar qual será o sistema de fornecimento de informação em 2041, mas, seja qual for, o jornalismo terá de continuar a ser rigoroso, objectivo e célere quando os factos acontecerem. As pessoas procurarão sempre histórias interessantes e bem contadas. Estas duas coisas vão ser sempre iguais.”

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