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Sorte dos Cães

22.10.14

Um dos mais ternurentos livros que li na vida foi escrito por Manuel Alegre: Cão como Nós. Gostei tanto do livro que, por alguns dias, andei às voltas com o pódio dos meus animais preferidos: o cavalo ou o cão?!

Serve este parágrafo para substância de manifestação de interesses. Em frente.

A imprensa tem noticiado nos últimos tempos que já existem mais cães do que crianças nas famílias portuguesas! A revista Visão chamou-lhe « “Os novos filhos” de estimação».

Nestas páginas temos feito eco do drama da baixa de nascimentos em Portugal (e na Europa), promovemos a natalidade e defendemos a continuidade dos humanos. É nosso entendimento que um dos maiores dramas da actualidade em Portugal é a perda de juventude e a perda de população- falta gente.

Mas como colocar na agenda um tema de médio prazo numa sociedade que vive do imediato, do momento e do instantâneo? Não se pode desistir…

…pois podemos estar a comprometer irremediavelmente a nossa recuperação económica e a nossa continuidade como país. O assunto é sério e grave. Até o governo já deu conta, imagine-se! Cada filho passou a valer 0,3 no calculo do IRS! Ridículo, se não fosse dramático. Mas é um sinal.  

Os argumentos para não ter filhos são os conhecidos. Falta tempo, falta dinheiro, em resumo, não há condições!!??

Pelos vistos, estes argumentos não se aplicam quando se fala em ter cães. Não falta tempo, não falta dinheiro, há condições!!??

Dos cães não se sabe o que pensam, como pensam, o que sentem. Quem os conhece diz que são capazes de um afecto absoluto que vai par além da racionalidade. E que podem ser os nossos melhores amigos.

E os filhos, não?

Outro argumento: os cães ajudam a combater a solidão. Tenho lido argumento semelhante sobre o facebook. O cão às lambidelas por todo lado e o facebook nos olhos para espreitar a vida dos outros e… adeus solidão!

Quem precisa de um cão (ou do facebook) para combater a solidão, não está só, está perdido e perdeu-se. Ou muda de vida, ou acabou-se. Não vive, existe.    

Há de facto muitas semelhanças entre um filho e um cão, muitas mesmo, mas há uma diferença que encosta todas as semelhanças: Não há um único cão que aprenda a dizer «Mamã» e «Papá». Nem um.

Descansem os fundamentalistas do Eu. Claro está que cada um é dono e senhor da sua liberdade de opção e de gerir as suas circunstâncias. No entanto, convém não esquecer que só o podem fazer porque um dia nasceram.

Ah! E os cães? Se, por absurdo, acabarem os filhos quem vai tomar conta dos cães?

Que tal combater o nosso excessivo comodismo, o nosso soberbo egoísmo adoptando a obrigatoriedade de em cada casa existir um filho por cada cão?!

Pode parecer estúpido, mas talvez assim se invertesse a perda humana e se garantisse a sorte dos cães.

 

ps: Homenagear Belmiro de Azevedo e a Irsil (Fernando Silva e José Silva) no mesmo dia, foi uma ideia feliz, inteligente, merecida e sem ponta possível de questão e/ou contestação.

Chapelada para José Carlos Alexandrino.

 

(publicado no jornal Folha do Centro, 22 de Outubro, 2014)

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publicado às 09:25


1 comentário

De Anónimo a 22.10.2014 às 12:26

Não sei se hei-de ler o texto literalmente ou metaforicamente.
Se optar por uma leitura literal o texto torna-se ridículo. Se, pelo contrário, optar por uma leitura metafórica o texto torna-se destituído de estética.
Leituras sérias de problemas complexos são necessárias. Não necessitamos de paladinos da moral.

P.S.: E O HOMEM ENCONTROU O CÃO de Konrad Lorenz - sugestão de leitura

António Ribeiro

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