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O título é uma provocação. O texto é de leitura obrigatória. Ou a prova evidente que a modernidade e a insanidade humana, muitas vezes, andam de mão dada. Para ler e voltar a ler. E pensar. 

sem nome.png Isabel Stilwell (jornal I, sábado, 1 Nov.)

O título é mentira. Ou talvez não. A Apple, entre outras empresas, paga a criopreservação dos óvulos das suas funcionárias. Benvindo ao admirável mundo velho.

Ai que nervos que me mete ver as mulheres caírem em armadilhas, só porque vêm embrulhadinhas com um aparato tecnológico-científico que lhes dá um ar moderno! Desculpem, entrei por esta página a correr e ainda nem expliquei ao que venho. Toda esta indignação surgiu ao ler um artigo na revista "Time", e que a "Visão" (re)publicou, de uma jornalista deslumbrada porque, imagine-se, empresas muito para a frentex como a Apple, o Facebook, a Google, e outras mais, anunciaram que a partir de agora vão pagar a criopreservação dos óvulos das suas funcionárias. Desembolsam 20 mil dólares, cerca de 16 mil euros, neste bónus, tipo subsídio de Natal, com o objectivo de permitir que as mulheres adiem a maternidade ("congelem a sua fertilidade"), tendo assim mais disponibilidade física e mental para se entregarem à carreira.

É claro que a jornalista não punha bem assim as coisas. Repetia, ao longo do texto, "caso a mulher o deseje". Ninguém a obriga, estão a ver? É claro que, se quiser engravidar, apesar de o patronato tão generosamente se propor financiar o adiamento, é provável que a empresa considere que não tem perfil para pertencer à elite de Silicon Valley, e que estava mais bem empregue num lugar onde, imagine-se, as mulheres têm filhos quando bem entendem. E, atrevia-me a acrescentar, engravidam quando, insensatez das insensatezes, o seu corpo está mais preparado para levar a tarefa a cabo.

A reportagem acrescentava ainda que a medida pretende atrair mais mulheres para estas companhias, predominantemente masculinas, e de onde elas saem cedo pela impossibilidade de conciliar a família com o trabalho.

Finalmente, dava conta da alegria das mulheres que, atendendo à boa nova, já frequentam sessões de esclarecimento em clínicas especializadas, que vão enriquecer à conta desta nova pancada. Não serão as únicas, argumenta a jornalista, recordando as vantagens económicas para as grandes companhias que em 15 estados norte-americanos são obrigadas a pagar os tratamentos de infertilidade das funcionárias, e que imaginam que com óvulos recolhidos jovens exigiriam menos ciclos e seriam mais baratos. Dah, mas ninguém pergunta quem é que prefere passar por uma experiência tão dura como é uma FIV, e com uma taxa de insucesso tão grande (de que ninguém fala), quando pode ter filhos sem nenhum desses problemas?

O artigo termina com uma citação de uma mulher que se regozija com o "empowerment" que esta criopreservação lhe dá, porque agora é ela, e não a natureza, que manda (como se os óvulos fossem a única parte de uma gravidez, mas adiante...). E a jornalista acrescenta: "E se o seu patrão lhe oferece essa possibilidade gratuitamente, o que é que você tem a perder?" Pois! E se a resposta for tudo?

Porque se virarmos a conversa do avesso e o título da reportagem fosse qualquer coisa como "Empresas coagem mulheres a não engravidar", ou, talvez, "Mulheres alugam o corpo à Apple por 16 mil euros", saltávamos na cadeira. E é isto que me enerva. Esta esquizofrenia que nos leva a manifestar-nos na rua contra a violação dos direitos das mulheres e, virando a esquina, a desatar a pôr likes e a partilhar a propaganda dessa mesma violação só porque tem uma aura de modernidade. O mundo novo que queremos é um mundo onde as mulheres podem ser mães e ter uma carreira, onde os filhos são responsabilidade de uma família, onde as crianças não são "projectos", como se não fossem mais que um spread a 20 anos de uma instituição bancária qualquer, e onde as boas empresas tornam tudo isto possível. Este "avanço" das empresas mais in do planeta não passa de mais um take do admirável mundo velho. E para esse já demos.

 

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publicado às 17:35



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