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...no dia dos 150 anos da morte de Abraham Lincoln, importa manter viva a memória...

 

«Não posso interpretar Lincoln. Seria como interpretar Deus.»

 

Henry Fonda (1939) 

 

«…tentar abordar a vida de um homem que se tornou um mito a tal ponto que é impossível uma aproximação suficiente para o representar devidamente. Não tinha a certeza de o conseguir.» 

 

Daniel Day-Lewis (2013)

lincoln.jpg

 

Lincoln. Só o nome é suficiente para nos fazer respirar fundo. E curva-nos.

O conhecimento da sua história de vida torna cruel qualquer comparação: parece impossível viver tanto, fazer tanto, ser tanto.

Nos dias que correm é bom escrever sobre um Homem assim. Sabe bem. Atira-nos para fora da mediocridade, da depressão. Mergulhar na vida de Lincoln leva-nos ao fundo da serenidade que se solta dos Homens superiores, e ganhamos tamanha determinação que é um desafio saber parar a caneta para não escrever muito. Sobre um homem grande, basta escrever pouco para dizer muito, para dizer tudo.

Lincoln não foi Deus, aliás, nem sequer tinha religião.

Lincoln não é um Mito.

Lincoln foi “O Homem com qualidades”. Tão grandiosas e tão bem aplicadas ao serviço da humanidade, da prosperidade e do futuro, que esmagam tudo e nos esmagam a todos. Sim, talvez possa ser doloroso interpretar Lincoln, estudar Lincoln, escrever sobre Lincoln. Fica-se encostado à parede, e logo se agarra o conforto de lhe chamar «Deus» e, ou, «Mito».

Lincoln já foi interpretado no cinema e (d)escrito nos livros em múltiplos formatos e de todos os ângulos. A última moda é vê-lo como paradigma da nova liderança empresarial, qual CEO disruptivo. Outra forma de o olhar chegará brevemente. É assim há mais de 150 anos.

Toda a vida de Lincoln é composta de desafios constantes, olhados de frente com determinação, mas sem espalhafatos nem comportamentos bipolares.

Abraham Lincoln nasceu em 1809 e aos sete anos de idade, pobre, foi obrigado a deixar a casa de Kentucky – mudou, pela vida fora, várias vezes de casa. Aos nove anos de idade ficou sem a mãe. Mais tarde perdeu a sua irmã e muito mais tarde perdeu dois filhos.

Aprendeu a ler e a escrever graças à bíblia. Foi o livro da sua infância e de todo o seu saber, onde terá desenvolvido o talento único em discursar, o que o tornou um dos homens mais citados de todos os tempos.

Tinha fama de preguiçoso e de pouco dado a aventuras de caça e de pesca, mas fez o caminho todo de baixo para cima. Foi balconista, carteiro e…deputado.

Estudou direito com livros emprestados e o seu sentido de humor tê-lo-á ajudado a brilhar nas várias sociedades de advogados em que participou.

Em 1846, Lincoln chegou à Camara de Representantes de Illinois. Não teve uma iniciação política prometedora. Não foi popular, fez oposição, desistiu e voltou… por causa da escravatura!

Perdeu eleições para o senado, mas estes combates políticos deram-lhe o estatuto de figura nacional.

Em1860, Lincoln tornou-se o 16º Presidente dos Estados Unidos, o 1º Republicano.

A sua escolha eleitoral provocou a guerra. Votaram nele os do norte, não votaram os do sul. É o presidente do maior e mais agitado momento da história Americana: a guerra civil, a guerra da secessão. Durou quatro anos e seiscentos mil mortos.

Em plena guerra, Lincoln, foi reeleito, em 1864.

Era autoconfiante, um líder, sábio e determinado negociador, magistral a gerir e a recrutar para junto de si pessoas melhores do que ele, ainda que sob os tiros da guerra.

Lincoln conseguia conquistar a opinião pública através da retórica e brilhantes discursos (o mais célebre terá sido o discurso de Gettysburg, em 1863) e tornou-se um símbolo icónico dos deveres da sua nação.

Assegurou a imortalidade em 1863 com a abolição da escravatura na emenda mais famosa da constituição dos Estados Unidos da América – a 13ª. A guerra acabou pouco depois.

Em 1865, um tiro na cabeça, diz-se que três dias antes adivinhado, fizeram de Lincoln o 1º presidente dos EUA a ser assassinado…e a tornar-se eterno.

Em 2013, Spielberg, num filme soberbo, volta a colocar Lincoln nas primeiras páginas como grande líder do teatro político. A obra do reputado cineasta foi aproveitada de forma despudorada pelos desqualificados que por aí proliferam, que logo deitaram as mãos às palavras proferidas por Thaddeus Stevens, no auge da batalha legislativa pelo direito dos negros: «A maior medida do século XIX foi aprovada através da corrupção, com a cumplicidade do mais puro homem da América.» Ora o filme retracta de forma exemplar a nobreza da política protagonizada por um homem que permaneceu firme e convicto do seu percurso moral e da sua decência, na luta pelos direitos civis e pela liberdade. «Ele nunca se desviou disso», disse Steven Spielberg no lançamento do filme nos Estados Unidos.

Com a devida vénia a “O Homem sem Qualidades” de Robert Musil, podemos escrever que “O Homem com Qualidades” Abraham Lincoln não foi propriamente um ser humano: foi alguém com alma. Foi um homem com imaginação, alegre, superior, feliz, que não abdicou da sua riqueza interior e assim não desistiu da sua vocação essencialmente humana para superar os seus limites, não se resignando a uma carreira social determinada.

 

(reedição, aqui publicado em 14 de Julho de 2013 e publicado na revista Ipsis Verbis, nº 6, Personalidades, Maio de 2013)

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