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«...o que acontece na vida de todos os dias não é as pessoas exprimirem apenas aquilo que já formularam mentalmente, que já sabem, que gostam e defendem; também dizemos por vezes coisas que nos surpreendem, ou até que nos ofendem, antes mesmo de, eventualmente, ofenderem terceiros. É comum encontrarmos obstáculos e resistências quando comunicamos aquilo que nos vai na cabeça; ou então dizemos frases que não controlamos bem, e que nos parecem inaceitáveis, contraditórias com os valores que professamos. Por isso é que algumas altercações no trânsito descambam em tiradas racistas, mesmo quando proferidas por indivíduos que não são racistas, ou que não têm consciência disso. A "liberdade de expressão" também permite que as pessoas digam aquilo que não querem dizer. E mais: que ouçam, espantadas, aquilo que têm para dizer, especialmente quando não sabiam antes.

Talvez a liberdade nos liberte, e nos liberte através da palavra, mas isso não é garantido. Herdeiros de civilizações do livro, atribuímos às palavras uma importância desmedida, quase sacralizada. Elas são o fundamento da crença e da identidade. De tal modo que nos desaguisados são quase sempre sobre as palavras e a sua interpretação, sobre aquilo que as pessoas ouvem naquilo que dizemos. Experimentamos uma profunda ansiedade quanto às palavras dos outros no espaço público porque sentimos a mesma ansiedade quanto às nossas próprias palavras. Tememos as diferenças entre as nossas intenções e as consequências das palavras. Ou a diferença entre as intenções e a nossa verdade íntima. Palavras e ideias têm uma vida mental autónoma. E todas as palavras, as que exprimimos e as que reprimimos, convocam o fantasma do inaceitável. O inaceitável das convicções sociais, das ideologias, dos tabus, das fobias. O inaceitável dos nossos desejos e pensamentos obscuros, que dizemos e que ouvimos quando nos exprimimos em liberdade.»   

Como gostava de ter escrito o que acima  se publica. É tamanha a identificação com a reflexão e a opinião que se assume a liberdade de divulgação como uma "Liberdade de Expressão", com a devida vénia a Pedro Mexia, que escreveu este texto (Dizer o Quê) na revista E na edição do semanário Expresso de 31 de Janeiro. 

Para ler e reler. E ler outra vez e voltar a ler de vez em quando.

 

(publicado em radioboanova.com em 1 de Fevereiro de 2015)

 

 

 

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