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silva-lopes.jpgA tribo dos economistas está em lágrimas. Morreu, aos 82 anos, José da Silva Lopes, o economista mais íntegro e mais dedicado à causa pública. Era também dos mais clarividentes. Tinha um espírito independente e era iconoclasta em relação às verdades adquiridas. Tinha uma base de conhecimentos enciclopédica e convicções profundas mas não certezas absolutas. Era humilde, de uma enorme humildade, mas também era duro como granito nas suas análises. Dizia que o Governo aldrabava (assim mesmo) os números e a troika também. Mas também admitia que a corrupção era menor no tempo de Salazar.

Não embarcava no entusiasmo da globalização sem freios e era um feroz opositor dos paraísos fiscais. Mas também dizia que para sairmos da crise tínhamos de cortar salários e as pensões mais elevadas. Não se curvava perante a Alemanha, a quem acusava de ser a responsável pelo baixo crescimento na Europa e por ter obrigado os países sob ajustamento a apertar mais o cinto do que seria necessário. Não poupava o BCE, que fazia menos do que devia. Mas era lúcido perante as nossas responsabilidades na crise, das Parcerias Público-Privadas aos grupos de interesses que capturam o Orçamento do Estado.

Silva Lopes foi ministro das Finanças e governador do Banco de Portugal nos anos de brasa de 74 e 75. Negociou com o FMI dois programas de ajustamento e negociou a nossa adesão à CEE. Foi dos que se manifestou contra a nossa adesão à moeda única e a taxa de câmbio com que entrámos. Mas agora não via como solução para os nossos problemas a saída do euro.

Foi um crente nas virtudes do Estado e do seu papel na economia. Apoiou as nacionalizações do 11 de março de 1975. Hoje reconhecia que também o Estado falhava em muitas áreas. Mas isso nunca o levou a pensar que os mercados, deixados à solta, conseguissem obter melhores resultados económicos e sociais. Deixou de ser pelo Estado acima de tudo. Mas nunca se tornou um fundamentalista do mercado.

Era incorrupto e incorruptível. Era de uma integridade à prova de bala. O que era do Estado era para estar ao serviço do Estado. Um dia, o seu motorista deu uma boleia à sua mulher quando ele era ministro das Finanças. Silva Lopes zangou-se e proibiu terminantemente os dois de que tal voltasse a acontecer. Dava também sucessivas provas de simplicidade e humildade. Não se escusava a explicar aos jornalistas aspetos mais complexos da situação económica.

Tinha um enorme sentido de humor e também sabia ser mordaz. Um dia, quando João Salgueiro era ministro das Finanças, disse-lhe que em três anos tinha acumulado mais dívida externa do que desde o tempo de D. Afonso Henriques. E contava com prazer a história da noite em que, às duas da manhã, telefonou aflito para o então primeiro-ministro, Mário Soares, a dizer-lhe que país só tinha reservas cambiais para dois dias. Soares, bem à sua maneira, respondeu-lhe: "Ó homem, são duas da manhã! Deixe-me dormir! Amanhã logo se vê o que podemos fazer". E desligou-lhe o telefone.

Com a morte de Silva Lopes, desaparece um dos mais brilhantes economistas portugueses mas também um dos mais dedicados servidores da causa pública e da Res Publica. Com ele não havia consultores..! Com ele cada cêntimo público gasto era severamente escrutinado e tinha de ser justificado sem qualquer ambiguidade. Com ele havia respeito pelos funcionários públicos e pela máquina do Estado. Com ele, essa máquina estava ao serviço do país e dos cidadãos e não dos governos.

Se há pessoa para quem o país tem uma enorme dívida de gratidão é para com José da Silva Lopes. 

Obrigado pelo exemplo, pela coragem e pela coerência.

Obrigado pela sabedoria, pela discrição, pela afabilidade.

Obrigado pela dedicação, respeito e hombridade com que serviu o Estado e os cidadãos.

Obrigado, dr. Silva Lopes.

 

(texto "ajustado" de autoria de Nicolau Santos, publicado hoje no Expresso Online)

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publicado às 12:17



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