Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]



Pedro Bidarra, publicitário (em pousio?) que mudou de vida para ser escritor, editou recentemente "Rolando Teixo" (Poucas palavras, Grande ficção), que alguns consideram um dos livros do momento. A edição é da Guerra e Paz.

Pedro Bidarra concedeu recentemente uma entrevista a Anabela Mota Ribeiro (Ampola Miraculosa, Jornal de Negócios), onde partilhou uma certa forma de olhar Portugal, a vida e as pessoas, que sob edição do ca$h resto z€ro aqui destacamos (a bold).

 

 

Gostar Portugal

É muito simples e está destilado. Já destilei esse pensamento, que é um pensamento de taxista. Gosto e amo o cheiro, e a cor, e o verde, e o mar, e os robalos, e a praia. E detesto a gente. Não são as pessoas. A parte das pessoas que é animal, que é como os robalos, os cães, os gatos, gosto. Aquela parte que é a nossa construção social cheia de convenções, cheia de gentinha, cheia de grupinhos, [não gosto]. É tudo muito conservador. Somos pequenos.

 

  

O ser pequeno

Não, é por sermos pequenos, é da dimensão. Os nossos ricos são pouco ricos. Os nossos líderes são pouco líderes. Toda a gente aqui tem muito a perder porque tem muito pouco. Qualquer empresário – e conheci imensos enquanto trabalhei – tem muito a perder. Um Bill Gates, um daqueles gigantes que têm muito, podem arriscar. Aqui, mesmo os nossos artistas, muitos deles arriscam pouco. Têm medo do que os outros vão dizer. Estamos todos muito próximos. 
Odeio a pequenez. Não é a pequenez das aldeias, é a pequenez do espírito. Estamos todos mais preocupados em conservar o pouco que temos do que arriscar o que temos para ter mais. A maior parte não diz o que pensa, está cheia de salamaleques, de vénias. Mesmo aqueles que é suposto serem abertos no meio artístico e cultural.

 

O conforto e o risco

Parece-me natural procurarmos o conforto, em casa, na família, no grupo. É biológico. Muitas vezes, a procura do conforto implica que não arrisquemos. "Não vou arriscar, o risco pode não compensar". Os desesperados arriscam muito mais. Não estando eles confortáveis, têm que arriscar à procura dessa zona de conforto. A nossa pequenez social: não temos poucos com muitíssimo, temos alguns com muito – não são tão poucos como isso. Também não temos o desconforto; vamos tendo cada vez mais pobres, mas não temos legiões de pobres, como há na América. Consigo encontrar pequenas zonas de conforto. O pessoal sente-se feliz de estar no Bairro Alto. Eu detesto. Oprime-me esta gente que vejo aqui, que é sempre a mesma, a palmada nas costas.

Chega-se a um ponto em que não se espera o risco, não se espera a criatividade, a diferença – espera-se a banalidade.

A ideia de deixar de aprender é uma receita para pensar que posso morrer.

Perdi uma data de dinheiro ao arriscar. Ganhava uma fortuna e agora ganho nada. Escrevo um artigo por semana num jornal electrónico, não dá para a gasolina. Perdi o conforto do dinheiro, o conforto do salamaleque à minha volta, do respeito. Deixar de ter a corte, custa? Muita gente diz que não, mas no fundo, no fundo...

 

A política

A política é uma coisa que me anda a enfadar imenso. Parece que está tudo a falar para o canal. Há um emissor e era suposto que o receptor fosse um cidadão, mas ninguém está a falar para o cidadão.

Mas oiço os que falam da esquerda e da direita e acho tudo uma irracionalidade! É tudo a falar sem verdade nenhuma. Há aqui um discurso que nos chama estúpidos a toda a hora. "Falem lá verdade", que não há dinheiro para fazer isto e que a nossa energia criativa devia ser usada para fazer o que muitas famílias têm feito. "Como é que me vou reinventar? Como é que refaço a minha vida, como é que me organizo com os meus filhos e avós e pais para conseguir ter poupanças?

 

Agora, Nós Pobres...e cada um de Nós 

Por volta de 2007, 2008 começámos todos a retrair; o país, o mundo. As crises financeiras. Começa tudo a ficar mais conservador.

Estamos a ficar pobres e vamos ficar pobres. Vamos ficar da nossa dimensão, que é pobre. Podíamos ficar pobres, não pobrezinhos e honrados, isso não vale a pena, mas pobrezinhos e espertos, e criativos. Era muito melhor se esta coisa forçada nos tornasse mais engenhosos. 

Nunca encontrei ninguém que não tivesse qualquer coisa. Não sei o que é que nos singulariza. Sou observador, gosto de ver. Só tenho uma alergia a pessoas chatas e pretensiosas. Gosto de bandidos e de gente diferente. Gosto mesmo de canalhas e de gajos esquisitos. Gente que me pode complementar.
 

E,

E o Portugalito?
É um sistema que aqui está. Como em todos os sistemas, uns crescem e prosperam, outros duplicam-se, outros definham e morrem.

 

O ser Eu a fazer

A minha casa nunca foi sítio de se elogiar os feitos. Fazer bem, estar bem feito era uma obrigação. 

Estar sempre quieto a fazer o mesmo é ser arquivado. A ideia de deixar de aprender, de já ter feito tudo – "já sou isto" – é uma receita para pensar que posso morrer. "Já fiz, já só falta morrer" – dá-me angústias. E vou fazer outras coisas. Por isso é que digo que estou sempre a começar.

 

Escrever 

Se estamos a escrever, estamos em casa, e são horas para fazer duas páginas. É tempo que não se está a viver, a comer, a passear. É tempo em que não se está a fazer outros verbos. Mas estamos a escrever sobre isso, sobre gente que vive, que ama, que passeia. 

Há três géneros de romancista: os que escrevem com o vocabulário, os que têm memória e os que têm ideias.

(Pedro Bidarra escreve "very short stories" no blogue "Escrever é Triste".)

 

Não vou fazer uma coisa que me torne infeliz.

 

 

 

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 17:01


1 comentário

De Rita Lobo Machado a 14.12.2013 às 22:13

Para ler, reler, pensar e aprender.
Obrigada pela partilha.

Comentar post



Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

calendário

Dezembro 2013

D S T Q Q S S
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
293031




Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D