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A crise é como as guerras ou como os terramotos. Quando acontecem destroem tudo, arrastam tudo, mudam tudo.

E mesmo depois de terem terminado, não acabam. Um rasto de destruição, de devastação, de frustração, vai consumir anos a limpar, a recuperar, a reconstruir. Há vidas que foram consumidas, que se consomem, que se perdem.

Sim, se for verdade que o pior da crise já terá sido, é bom ter presente que não acabou. Perderam-se milhares de empregos, milhares de empresas, muitas vidas arruinadas, muitos sonhos desfeitos e recuperar de um tsunami assim vai demorar anos. Tal como nas guerras, tal como nos terramotos, as feridas demoram a sarar.

A crise é a vida vestida de crueldade.

Tanto sofrimento para (quase) nada.

Pois é. A crise mudou pouca coisa, ou nenhuma.

O capitalismo não foi derrotado nem reformado, foi reforçado. E tudo continua a girar à volta do dinheiro. Muito dinheiro. Só dinheiro.

Nas crises o azar é estar no meio. Nas crises safam-se os das pontas:

 

- Os pobres estão na mesma, quer pelo hábito de viver com pouco ou sem nada, quer pela tranquilidade de quem nada tem nada perde. É assim, não vale a pena fingir que não é.

 

- Rejubilam os ricos, que são mais e mais ricos. Nunca existiram tantos ricos tão ricos como agora. Alguns, poucos, ainda lhes dá para a filantropia; outros, a maioria, inventa formas de gastar dinheiro: nas obras de arte, na moda, no conforto do luxo, no imobiliário, nas extravagâncias que vão desde as drogas, experiências radicais, até ao sexo.

 

O pior da crise está guardado para os que sobrevivem medianamente, enfim, remediados e já com qualquer coisinha. Qualquer coisinha poupada, qualquer coisinha construída e ganham qualquer coisinha de jeito.

E há qualquer coisinha de sádico nas crises! São estes apóstolos da vidinha honesta que pagam a conta grande da crise.

Há paragens onde os ricos viram as suas receitas aumentarem quase 1000% em vinte anos e a diferença de rendimentos destes para os outros, passou de vinte para duzentas ou trezentas vezes mais em 50 anos.

Há paragens onde milhões continuam a ter para viver 1 euro por dia. Ou menos.

Nada deteve esta espiral de diferenças, nem crises, nem guerras, nem terramotos.

O desequilíbrio aprofundou-se. A maioria vive com pouco, muitos perderam muito, poucos, que são agora ligeiramente mais, nunca viveram com tanto.

O número de multimilionários em Portugal -- com fortunas superiores a 25 milhões de euros -- aumentou 10,8% para 870 pessoas no último ano, apesar da crise que se vive no país, segundo um relatório do banco suíço UBS. O valor da fortuna aumentou 11,1%.

Resta a consolação de constatar que é verdade o que sempre nos foi dito como sendo verdadeiro: os ricos não pagam a crise.

 

(publicado no jornal Folha do Centro, segunda-feira, 18 de Novembro de 2013)

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